segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Xenofobia, ignorância e as raízes do ódio.

Protesto do grupo xenófobo PEGIDA em fevereiro:
um dentre muitos.
Uma onda de violência tem causado preocupação na Alemanha. Cercado pelo discurso xenofóbico crescente, o país tem visto uma onda de ódio “sem precedentes desde o fim do nazismo” que ameaça a imagem de tolerância que o país lutou para formar, segundo o Der Spiegel. Exemplificando a questão, os ataques contra imigrantes e centros de refugiados triplicaram entre 2014 e 2015 - até outubro, foram 493 ataques - e a gravidade dos atentados aumentou igualmente: onde antes jogavam-se pedras, agora jogam-se molotovs. As velhas pichações deram lugar a manifestações neonazistas e agressões. É fácil imaginar que esses eventos sejam apenas ação de "vândalos" e "bandidos", e que não haja nenhum problema maior a ser resolvido, apenas "criminalidade" sem direção. Mas em dois terços dos ataques na Alemanha, os envolvidos não tinham passagens pela polícia. Algo está levando "cidadãos comuns" a abraçarem a violência como solução para seus medos - e as consequências dessa reação já são bem conhecidas. Os alvos podem mudar, mas o ódio em si? Ele é sempre igual.


Mas o problema não se restringe a Alemanha. O ódio à imigrantes - particularmente os refugiados do Oriente Médio - é um problema global. Nos EUA, no Reino Unido e na França já há discurso partidário pedindo a expulsão dos “terroristas em potencial”. No restante da União Européia, casos de violência contra refugiados são comuns. Ainda no Reino Unido, o próprio caráter dos refugiados como refugiados é questionado por grupos como Britain First e o partido UKIP, com insinuações de que seria uma “Infiltração do estado Islâmico”. Nos EUA, acumulam-se casos de agressão em um país que se vê tomado por protestos armados ao redor de mesquitas. O argumento de todos os casos é de que os muçulmanos são “intrinsicamente violentos”, e portanto temos que usar de mais violência.


Por trás da violência, estão dois discursos repetidos ao longo da história. Um é o discurso xenofóbico, com alegações de que “eles” (os imigrantes) estão aqui para “roubar nossos empregos” e “parasitar o estado”, que são “violentos” e “criminosos”, trazendo miséria e doença para “nossa grande nação”. É um discurso que tem mais influência entre aqueles que se consideram "deixados de lado" em decorrência da vinda de imigrantes: comunidades mais pobres, historicamente negligenciadas, desempregados e os outrora privilegiados. Não sem motivos, o ódio na Alemanha é mais intenso no leste - que deu uma forte guinada para a extrema direita após a queda do muro, quando os sentimentos de abandono e negligência da comunidade nos dois regimes viraram combustível para neonazistas e similares. É um discurso causado por um medo basal de que a nação idealizada deixe de ser como é no seu imaginário, e que outras identidades - estrangeiras e alienígenas ao seu convívio - tomem seu lugar. Como nota Bertrand Russell, “Medo coletivo estimula o instinto de manada, e tende a produzir ferocidade contra aqueles que não são parte da manada”. É exemplificado nos “argumentos” do pré candidato Republicano Donald Trump para se opor a migração oriunda do México: “Eles estão nos enviando estupradores e traficantes, não pessoas boas”.

Tema recorrente: o Islã como bloco monolítico,
medieval e violento. Neste caso, como
a antítese da civilização.
O outro é o perene favorito de estados autoritários, o do “inimigo”. Atualmente, na forma de memes e talking points islamofóbicos, pautados antes na Al Qaeda, hoje no Estado Islâmico. Embora em o discurso declarado seja contra extremistas, o subtexto acusa implicitamente todos os muçulmanos nas ações destes jihadistas. O “terrorista” e o “muçulmano”, no imaginário popular, são um só; Enquanto a retórica de muitos grupos insinua que todos os muçulmanos são “o inimigo”, vários são explícitos em seu ódio. Essa sombra idealizada do islã foi bem descrita por Chris Allen como sendo “o oposto” e a “sombra” da civilização. Em outras palavras, o Bárbaro e o selvagem. Essa imagem popular é o que faz com que sejam aceitáveis as representações desumanizantes do muçulmano vistas em charges políticas, comparadas pelo sociólogo inglês com as imagens de propaganda nazista contra os judeus.

Com isso, as pessoas que estão fugindo da barbárie do Estado Islâmico e da Guerra Civil Síria são vistos como os responsáveis. Na visão xenofóbica, os refugiados não estão fugindo do conflito: estão trazendo ele consigo, seja por não terem “feito o bastante” para encerra-lo... ou por serem “agentes infiltrados” do terrorismo. A noção de muçulmano=terrorista se fez bem clara quando Ahmed Mohammed, 14 anos, levou um relógio de fabricação própria, para mostrar ao seu professor de engenharia. Ao invés de ser parabenizado, Mohammed foi detido, acusado em rede nacional de “levar uma bomba falsa” e atacado por celebridades “racionalistas” como Richard Dawkins e Bill Maher, que se uniram em discurso a conservadores como Bill O’Reilly e Sarah Palin. Agora, depois de um circo midiatico, ofertas de bolsas e desculpas estatais, Mohammed se mudou para o Qatar.

enquanto isso, também nos EUA, o dono de uma loja de armas se vê no direito de estimular a violência contra muçulmanos.

O escritor americano George Bernard Shaw nos lembra que a tendência a xenofobia é proporcional ao quão “insulares” e ignorantes sobre “o outro” as pessoas são. Como ele nota . “Todas as classes, em proporção a sua falta de viagem e familiaridade com a literatura estrangeira, são belicosas, preconceituosas com estrangeiros, e afetas a luta como um esporte cruel. Em suma, cães em suas noções de política externa”. O temor e a xenofobia se dirigem ao “desconhecido”, o outro, aquele cujo nosso conhecimento não tem bases para filtrar a propaganda e a demonização; daí a eficiência hoje em pintar 1,8 bilhões de pessoas como terroristas e simpatizantes do terrorismo, assim como milhares de imigrantes japoneses foram pintados como “traidores em potencial” durante a Segunda Guerra Mundial.


As raízes da xenofobia estão em algo que é disseminado por todos os níveis da esfera pública: os clichês. É fácil manter o discurso de ódio e medo quando o alvo é um construto efêmero e repleto de lugares comuns. Assim como é simples e confortável alegar que aquele cara que você conhece que é muçulmano/haitiano/chinês/judeu é “diferente”, “é um dos bons”, “não é como o resto”. Afinal, se tem uma ideia pronta do “resto”, e enquanto o “resto” for tão deslocado da realidade da pessoa quanto esse clichê... o clichê vence. A mídia tem um papel muito grande na preservação desses clichês, e já passou da hora de exercer um papel em quebrar estes clichês.

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