terça-feira, 31 de maio de 2016

A cultura de estupro, o funk e o preconceito

O problema não é o Funk. Longe de ser.
A chocante notícia da semana passada, do estupro coletivo de uma menor em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, gerou discussões fervorosas nas redes sociais. Muitas destas giravam em torno do conceito sociológico de “Cultura de Estupro”, a tendência social de naturalizar casos de estupro quando suas vítimas não se encaixam no conceito de “vítima ideal”.

Não faltaram tentativas de isentar os agressores de culpa: o comportamento da garota foi questionado, a agressão negada, sua moral posta em cheque. Seu contato com integrantes do tráfico de drogas na região usado como prova ora de que ela “merecia”, ora de que ela “pediu por isso”. Se por um lado as palavras dela eram vistas com desconfiança, o depoimento de seus agressores foi tido como 100% confiável.

Enquanto movimentos sociais apontavam as questões sociológicas que cercavam o caso, outros usaram do caso para distilar o preconceito. Em postagens online, páginas ligadas ao Rock’n’Roll e à movimentos conservadores apontavam que a “verdadeira” cultura de estupro era o Funk.

O raciocínio parte do tópico recorrente de objetificação sexual da mulher e de dominação sexual em algumas das letras do gênero musical, combinada com sua associação com o narcotráfico. Embora esse problema seja presente em muitas letras do funk, a argumentação ignora (deliberadamente) que outros gêneros musicais também tem um histórico de tratar a mulher como mero objeto sexual - assim como ignora que muitas das letras do funk não são sobre a mulher como objeto sexual, mas como agente de sua própria sexualidade.

Peguemos por exemplo o blues. Marcado por um sofrimento intenso, o gênero musical também é marcado por uma misoginia recorrente e bruta, como a vista em “22-20 Blues”, de Skip James - que trata de matar uma companheira infiel - ou “Terraplane Blues”, de Robert Johnson - que trata o corpo de uma mulher como um carro: uma máquina a ser usada. Ou em uma música mais recente, o misto de blues com disco “Blurred Lines”, de Robin Thicke, sobre como ela “estava pedindo” e como o cantor ‘odeia essas linhas vagas”.

O Rock’n’Roll - cujos fãs vem como sendo “mais refinado” e “acima da vagabudagem” do funk - tem letras que não apenas remetem ao sexo, mas diretamente ao estupro. Caso este de “Brown Sugar” dos Rolling Stones - que trata do tráfico negreiro e do “quão gostoso” era estuprar uma escrava. Outras tratam mulheres como nada além de coisas a serem usadas - como “So Easy”, do Guns n’Roses, com um verso que diz:

“Você não é de nada
Se é que seve para alguma coisa
Vire de costas, vadia, eu tenho algo para você
Além disso, você não tem nada melhor a fazer
E eu estou entediado”


A misoginia nem sempre dá a cara na forma de objetificação ou de estupro: as vezes é em tratar a mulher como posse. Um exemplo deliberado disso é o clássico “Every Breath you Take”, da banda The Police. Embora a canção seja do ponto de vista de um stalker que orgulhosamente declara “oh can’t you see? You belong to me” (Oh, não pode ver? Você pertence a mim), a música ainda é vista como “romântica”, para o horror de seu compositor, Sting. O mesmo tema foi abordado sem ironia pela banda Nickelback, em “Follow you Home”.

Em outras letras, há a naturalização do feminicídio e da violência. Caso este de “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, do AC/DC, cujo um dos versos fala em se livrar da companheira “que não para de te encher”. Ou de “Keep on loving you”, da banda REO Speedwagon, que trata com naturalidade o ato de bater na companheira. Igualmente, há “Sex Type Thing”, do Stone Temple Pilots - onde o “direito” a transar por que ela “provocava” se mescla com a ameaça de violência.

“Nem” a tão refinada ópera escapa da misoginia naturalizada culturalmente: a famosa Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, trata de um ator (Canio) que mata no palco sua esposa (Nedda) e seu amante (Silvio) - e é tratado pela trama como a vítima na história. A tragédia de Pagliacci não é o crime de Canio, mas a traição de Nedda.  Ao mesmo tempo que é uma peça fortíssima, ela trata o ciúme violento de Canio como justo.

Mas para outros formadores de opinião, não era só a música do morro o problema. Estes foram mais longe em seu misto de elitismo e racismo. Para alguns, o problema era inerente à “cultura do morro” e à “gente parda”. Teriam sido culturas “mimadas” pelos “direitos dos manos” ao ponto de serem incapazes de “assumir responsabilidade por seus atos”, e que “jamais tiveram respeito pela mulher”. É uma mentalidade aterradora, que insinua que apontar fatores sociológicos para além da culpa individual - análise crucial se queremos prevenir eventos futuros desse tipo - seja “isentar o agente de culpa”.

Essa mesma mentalidade foi vista na Europa na ocasião da série de agressões sexuais em Colônia no fim do ano passado. Enquanto uns tentavam analisar o problema do estupro por um viés sociológico, tentando ver as raízes da mentalidade que torna este crime tão recorrente, outros apelavam para o preconceito: a culpa era pura e simplesmente “do Islã”, outra matriz cultural que é vista como “inerentemente estupradora”. Nisso ignorando que a maior parte dos agressores eram europeus natos - e mais importante, que estupro - coletivo ou não - não era exclusividade dos imigrantes e dos “favelados”.

É mais fácil tratar isso como um problema dos outros, de “culturas degeneradas” e “primitivas”. Mais fácil do que olhar para o âmago da nossa civilização e ver que o problema vai mais fundo, que há uma ideia recorrente de que mulheres “devam” sexo, e que simultaneamente devam ser puras e recatadas - do contrário mereciam. Só lembrar que até 2005, só podiam ser vítimas de estupro “mulheres honestas” - seja lá o que isso quer dizer.

E dessa mentalidade vem a solução simples defendida por muitos: pena de morte, castração química, porte arma, linchamentos. Medidas que não previnem, apenas vingam, e apenas contra aqueles que se encaixam no estereótipo do estuprador como monstro em uma viela escura (quando a vítima não for ignorada “pois se fosse gente de bem não estaria lá”). Aos namorados, maridos, amigos, chefes, médicos e professores que estupram, a certeza de que suas vítimas serão vistas como interesseiras - afinal, eles não tem cara, jeito ou cultura de estuprador, não é?

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Assim começa a Era Temer

Ao som de aplausos e celebrações fervorosos, o Senado nacional aprovou a continuidade do processo de Impeachment. Nesta quinta-feira, encerrou-se o governo de Dilma Rousseff, e teve início o do presidente-interino Michel Temer. Para muitos, é o sinal de uma nova era “de combate à corrupção”, mas o primeiro dia da era Temer parece demonstrar o contrário.


Em seu primeiro dia como presidente em exercício, o PMDBista tratou de podar órgãos no governo: foram-se os ministérios da Cultura, do Desenvolvimento Agrário, dos Direitos Humanos, da Mulher e da Igualdade Racial, da Ciência e Tecnologia e o das Comunicações. Todos foram oficialmente agregados à outros ministérios, renomeados de acordo, muitos sendo tratados como questões secundárias nas novas pastas, algumas delas assumidas por ministros com histórico descaso por estas questões - tal qual o novo ministro da Justiça e Cidadania (novo ministério que fundiu Justiça com a pasta de Direitos Humanos), Alexandre de Moraes, ex-secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, em uma gestão que viu um aumento de 61% nas mortes em confronto com a polícia. Durante sua gestão, uma em quatro mortes na capital Paulista era resultado de ação policial.


A secretaria de Comunicação Social da Presidência da República foi outro corte, juntamente com a chocante extinção da Controladoria Geral da União, trocada por um Ministério da Fiscalização, Transparência e Controle, assumido pelo professor de Direito Fabiano Augusto Martins Silveira. Onde o velho órgão de defesa do patrimônio público e combate à corrupção era gerido de forma independente, o novo ministério se encontra sob responsabilidade direta do Presidente.


Curiosamente, a “redução” da máquina pública com o corte de ministérios resultou em dois ministérios com a mesma função: Tanto o novo Ministério da Indústria, Comércio e Serviço quanto o renomeado Ministério do Desenvolvimento social e agrário (assumido por Osmar Terra, do PMDB) tem as seguintes atribuições:

- política de desenvolvimento da indústria, do comércio e dos serviços;
- propriedade intelectual e transferência de tecnologia;
- metrologia, normalização e qualidade industrial;
- políticas de comércio exterior;
- regulamentação e execução dos programas e atividades relativas ao comércio exterior;
- aplicação dos mecanismos de defesa comercial;
- participação em negociações internacionais relativas ao comércio exterior;
- execução das atividades de registro do comércio;


Mas as mudanças nas atribuições dos ministérios não são a única coisa a levantar perguntas. Enquanto parte do país celebra o “fim da corrupção” com a queda de Dilma Rousseff, as escolhas de Temer incluem sete investigados da Lava Jato, três dos quais (Romero Juccá - Planejamento, Desenvolvimento e Gestão,  Geddel Vieira Lima - Secretaria de Governo e Henrique Eduardo Alves - Turismo) profundamente envolvidos no caso, enquanto outros quatro (Mendonça Filho - Educação e Cultura, Raul Jungmann - Defesa, Bruno Araújo - Cidades e Ricardo Barros - Saúde) estão nas listas de doações da Odebrecht que aparentam indicar propinas. Além disso, o secretário da Justiça, Alexandre de Moraes, foi advogado do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha - que teve seu mandato cassado por ser réu na Lava Jato. Na Agricultura, por sua vez, temos Blairo Maggi - “agraciado” em 2005 com a “motosserra de ouro” por seu papel no desmatamento do país.


O corpo de ministros foi criticado por sua composição altamente conservadora: dentre 21 ministros, nenhum negro e nenhuma mulher - composição criticada pela Anistia Internacional, que condenou também a nomeação de Alexandre de Moraes para o ministério da Justiça. A defesa para isso é a mesma de sempre: a escolha teria sido por “competência”, levando a pergunta: não há nenhuma mulher e nenhum negro “competente” a ponto de fazer parte do governo Temer? E se a escolha foi por competência, como explicar Mendonça Filho (DEM-PE) como ministro da educação e cultura, tendo em vista o histórico do parlamentar como pecuarista, e a ausência de um histórico na educação ou na área cultural?


Ao mesmo tempo, as investigações quanto a corrupção parecem desacelerar. Gilmar Mendes mandou suspender a coleta de evidências quanto a participação de Aécio Neves no esquema de corrupção da Petrobrás, alegando ainda que não há "motivos para investigar". Na semana da votação do impeachment no senado, o juiz Sérgio Moro rejeitou as denúncias contra o empresário Marcelo Odebrecht nas CPIs da Petrobras.


Já na área econômica, o governo Temer se abre com a possibilidade de aumento nos impostos, algo que o novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, diz que se houver, será “temporário”. Com as contas públicas no vermelho, a possibilidade não deve ser negada - e é muito pouco provável que um ministro recém empossado tocasse no assunto se não fosse haver aumento na tributação.

Assim começa a era Temer. Esperemos para ver como ela termina.

E um comentário final de Robert Born, para encerrar

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Síria: Turquia abate jato russo e ameaça reacender a Guerra Fria.

Ação turca reacendeu hostilidades e azedou relações
Esta terça feira (24 de novembro) se abriu com más noticias: a destruição de um caça russo na fronteira da Turquia com a Síria pelo governo da Turquia pode ter reacendido as chamas da guerra “fria”. Com certa razão, o presidente russo Vladimir Putin descreveu o incidente como “uma facada nas costas” e uma “traição”, chamando o presidente turco Recep Tayyip Erdogan de “cumplíce do ISIS”. 

A Turquia,  por sua vez, diz que seu espaço aéreo foi invadido. O que não justifica o abatimento da aeronave. O primeiro ministro turco, Ahmet Davutoglu, justificou a ação alegando que a Turquia tem todo o direito de proteger suas fronteiras. "Todo mundo deve saber que é nosso direito internacional reconhecido e nosso dever adotar todas as medidas necessárias contra qualquer coisa que viole nosso espaço aéreo ou nossas fronteiras", afirmou o primeiro ministro. 


As repercussões disso são preocupantes. As operações militares contra o Estado Islâmico foram prejudicadas, e o grupo terrorista foi o único beneficiado da ação turca, como parte do curioso ardil 22 que cerca a região: bombardear o EI gera momento e rancor para recrutar mais “combatentes”. Não o bombardear lhe dá a oportunidade de se fortificar e se estruturar. Mas os problemas mais graves estão além do Daesh:  A possibilidade de uma retaliação russa contra a Turquia arriscaria deflagrar um conflito muito maior - como membro da Otan, Ankara contaria com o apoio dos outros países membros, resultando em uma guerra mundial, caso seus aliados intervissem contra a Rússia.


Da mesma maneira, há o perigo de um “ataque preventivo” contra a Rússia, para “evitar” uma ação militar contra os turcos. Esses são os quadros mais graves - o mais plausível é que a situação seja resolvida diplomaticamente, mas as relações Rússia-ocidente ficaram (mais) azedas após o ocorrido. Moscou já havia deixado claras suas intenções de impedir uma intervenção Turca na Síria em outubro, e Ancara parece ter mais interesse em reprimir os movimentos curdos do que em combater o Estado Islâmico.


É claro que a Turquia está dando desculpas para o ocorrido: trate-se de mais uma parte do longo jogo de poder envolvendo a Síria, Assad e a minoria curda, ou de um acidente causado por incompetência e zelo excessivo, os jogos de poder da região pintam um quadro péssimo para Turquia. Parte da repercussão em cima do caso, como tem se tornado costumeiro, joga a responsabilidade das ações Turcas nos EUA e na União Européia. Há de se lembrar que os interesses da Turquia são interesses da Turquia, assim como seus atos. Que estes sinergizem com os dos EUA e da UE, não significa que as ações sejam “a mando de Washington e Berlim”.

Há um grande conflito de interesses quanto a Síria: Para os russos e a União Européia, há legitimidade nas milícias curdas combatendo o EI, mas para os turcos,  grupos  como a PKK (O Partido dos Trabalhadores Curdos, milicia marxista curda) e os Peshmerga são terroristas; da mesma maneira, enquanto os Russos mantém o apoio ao presidente Bassar al Assad (que não tem legitimidade ou controle do país), a União Européia, os EUA e a Turquia querem sua queda - mesmo isso arriscando desestabilizar o país ainda mais. Agravando a situação, um helicóptero enviado pela Rússia para recuperar os pilotos do avião foi atingido por rebeldes sírios armados pelos EUA. O helicóptero fez uma aterrissagem forçada em uma base aérea controlada pela Rússia.


Vale lembrar que tanto a Rússia quanto a Turquia estão longe de serem pacíficas.  Enquanto o discurso militarista americano é repetido dia a dia em todo o mundo, o discurso político destes dois países é restrito a notas nos jornais e seus canais “oficiais” de comunicação, dando a ilusão de que o apoio à guerra seja uma exclusividade ocidental. A ilusão de que os russos não apoiem o uso de força militar é apenas isso: uma ilusão.


Do contrário, ambos tem uma longa história recente de guerras. Em 1996, a Rússia invadiu a Chechênia, para suprimir um movimento separatista secular na região. Em resposta a invasão russa, o acadêmico e guerrilheiro muçulmano Akhmad Kadyrov deu inicio a uma “jihad” contra a Rússia. Após uma derrota contra os mujahideen e a  auto proclamada república da Ichkeria, os russos novamente invadiram o país em 1999, dando início a uma guerra de 10 anos, a dissolução da República da Ichkeria, e a continuidade do controle russo sobre parte da Chechênia*.

Em 2008, os russos invadiram a Georgia, alegando defender as auto proclamadas repúblicas da Abkhazia e da Ossétia do Sul. O auxílio armado a grupos secessionistas se repetiu em 2014, com a invasão da Crimeia após a desestabilização da Ucrânia. A secessão  da Crimeia (e sua imediata anexação a Russia) foi seguida pela invasão de Donetsk e Luhansk - novamente apoiando o mesmo tipo de “revolução” a qual a Russia se opõe na Síria. Hoje, a Ucrânia se vê tomada pelo conflito e pelo crescimento de movimentos nacionalistas ucranianos e russos - ambos flertando com a extrema direita.


Para os turcos, a PKK e outros grupos turcos são
um problema maior. Foto: AFP.
Já a Turquia está envolvida desde 1978 em um conflito armado contra milicias curdas no país, sem que haja qualquer tentativa de negociação. Em 1997, o país “interviu” na guerra civil curdo-iraquiana, um conflito armado entre grupos curdos no Curdistão iraquiano, com resultados extremamente violentos - em 2011, a força aérea turca matou 34 civis curdos na aldeia de Roboski “em uma ação anti terrorismo”. Segundo o governo turco todos os mortos eram “traficantes e contrabandistas”. Ancara também impediu a entrada dos corpos de milicianos curdos mortos em combate com o Estado Islâmico.


O país é um dos mais envolvidos no conflito Sírio - não sem motivos, dado que a Turquia faz fronteira com o país. Essa proximidade faz da Síria alvo de muito interesse pelos grupos políticos turcos, especialmente quanto aos Curdos e Armênios. Enquanto a Rússia é acusada de centrar seus ataques contra os rebeldes, a Turquia abertamente foca seu poderio militar contra os Curdos, em detrimento de ações contra o Estado Islâmico - que é usado como bode expiatório para os excessos das forças armadas, e praticamente ignorado quando mira nos curdos.


O que quer que venha da ação desastrosa da Turquia, não é de agora que o país está em uma situação crítica. Haverá um grande preço a pagar por isso, seja diplomaticamente (esperemos) ou militarmente (um preço que pode ser alto para todo o mundo, caso o resto da OTAN não vire as costas para Erdogan). O incidente desta terça-feira pode ter sido o estopim de uma guerra Russo-Turca - e por extensão, de uma terceira guerra mundial. Esperemos que não seja o caso.

*As sucessivas guerras da Rússia contra a Chechênia se estendem desde antes da Chechênia existir como nação: a Rússia Czarista tentou tomar a Chechênia na guerra do Caucaso (1817-1861) e as tentativas de controle russo da região se repetem desde então.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Estadão sofre ameaça de bomba. E agora?

Anos antes, na ditadura, o jornal foi alvo de uma bomba:
poderia a história se repetir?
Nesta segunda-feira, por volta das 16h, a sede do Jornal Estado de São Paulo foi evacuada após uma ameaça de bomba, feita pelo telefone O motivo da ameaça não foi esclarecido. Mas independente do que seja, e de quem sejam os autores, um ocorrido destes é preocupante. Assim como é preocupante que se trate de um assunto desses com leviandade e trivialidade.

Um risco de bomba na sede de um dos maiores jornais do país não é algo trivial. Como trote, é um trote não apenas sem graça, mas irresponsável.  Se a declaração foi sincera (ou tinha a intenção de realmente intimidar os jornalistas), no entanto, é um possível sinal de que a radicalização política (independente de lado) no Brasil já não tem mais vergonha - o que deveria ter se tornado claro quando jogaram uma bomba na sede do Instituto Lula. Também pode ser sinal de um ex-funcionário descarregando frustração de forma doentia, ou alguém com um senso de humor muito pervertido.

Independente da causa, no entanto, é lamentável e absurdo que um jornal seja alvo de ameaças de bomba em um país que se diz democrático, e que essas mesmas intimidações sirvam de base para acusações e piadinhas.  Não importa se você apoia ou não as posições político-ideológicas do Estadão: não é assim que se lida com uma discordância discursiva.

Há de se lembrar que durante a ditadura, o Estadão - notório por substituir matérias censuradas por receitas de bolo e outras trivialidades - foi alvo de um atentado à bomba, em 16 de novembro de 1983. O objetivo do atentado, armado pelo ex delegado do DOPS, Cláudio Guerra, era incriminar e desmoralizar a esquerda.

Piadinhas e acusações marcam os comentários.
A hostilidade contra a imprensa tem se tornado uma coisa cada vez mais comum, como demonstram os casos de agressões verbais contra repórteres em manifestações. Este não é um problema nacional: há casos de violência verbal e física contra repórteres em protestos nos EUA, no México e em grande parte da União Européia. Discordância quanto ao foco, tom ou conteúdo da cobertura vira motivo para agressividade, e mês passado, um repórter do Buzzfeed foi fisicamente agredido em um protesto da Jewish Defense League, por “ter dado uma cobertura demasiadamente pró palestina”.

Tampouco se restringe a casos tão “leves”: segundo o Comitê para a proteção de Jornalistas, a violência contra profissionais da imprensa tem crescido consideravelmente nos últimos 12 anos. E o Brasil ocupa uma posição nada agradável no ranking, com 4 jornalistas mortos pelo DOPS em função de seu trabalho em 2015.

Ao menos o incidente do Estadão se resumiu a um susto, no fim das contas. Se havia ou não uma bomba não foi divulgado até o fechamento deste texto. Esperemos que isso não sirva de inspiração para outros “revoltados” e outros “engraçadinhos”. A última coisa que o Brasil precisa é de atentados em jornais.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Os critérios e os riscos da cobertura de terrorismo

Uma visão simplista. O recorte existe, mas não é tão claro -
e nem são os outros conflitos ignorados.
Há muita gente que reclama que a imprensa não dá uma linha sobre *insiraatentadoaqui*, enquanto compartilha reportagem sobre o mesmo atentado. A coerência começa a se perder aí: quando se usa a cobertura de algo para alegar que a cobertura não existe. Da mesma maneira, alegam que a cobertura imediata de um evento inesperado significa a total ignorância de outros eventos do gênero (um dos quais, o massacre de Garissa, ocorreu em abril, e foi a época coberto com exaustão por agências de notícias e noticiários internacionais). 

Mas a narrativa vai além, alegando que um atentado no centro de uma região de conflito com acesso limitado da imprensa por questões logísticas e de risco não ter exatamente a mesma cobertura que sete atentados coordenados em uma das maiores cidades do globo, com jornalistas 24 horas e em um país que não é marcado por violência deste tipo é uma coisa só: a imprensa é "racista e quer ver negros morrerem". E o desconhecimento popular sobre não é resultado do combo de -local distante e vago, portanto não familiar- com fadiga de compaixão por ouvir histórias de violência sobre a África a tal ponto que se tornou rotina: é porque as pessoas são todas "racistas e querem ver negro morrer". 

Quantas pessoas vocês conhecem que foram para Paris? Quantas imagens de Paris fazem parte do imaginário popular? O quanto sabem sobre a Nigéria? Sobre Bagdá? Todo mundo conhece alguém que foi para paris, ou que sonha em visitar a Cidade Luz. A Nigéria, no entanto? Para os olhos da maior parte da população, é tão familiar quanto o Uzbequistão, a Geórgia ou o Laos. Não é por racismo: nos atamos ao que nos é familiar. O desconhecido é vago demais para gerar um laço emocional, e nossa psicologia, infelizmente, dificulta em muito a compreensão do que é alheio a nossa experiência. Da mesma maneira existem fatores geopolíticos que pesam na decisão: o quão influente é a Nigéria? Sim, é uma tragédia. Mas que impacto isso tem no resto do mundo? Que impacto tem uma série de ataques na capital da França? São questões diferentes. E que vão influenciar em quanto tempo e espaço pode ser disposto para cada história. 

Outro fator ignorado: estados tem um poder considerável para obstruir ou facilitar o trabalho da imprensa. Nos estados mais vitimados pelo terrorismo e pela violência política, o trabalho jornalístico se encontra ameaçado por milicias, cartéis e terroristas, mas também pela ação de governos com pouco interesse em "jornalismo honesto" sobre o que ocorre em seu país. Corrupção, prisões arbitrárias, confiscos, desaparecimentos e agressões são eventos recorrentes com jornalistas nestes países. Indo cobrir a guerra civil na Síria, em 2012, o jornalista brasileiro Kléster Cavalcanti foi preso e torturado, sob alegações falsas. Essas ações, assim como 57% das mortes de jornalistas no país nos últimos 23 anos (segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas), vieram não de grupos terroristas, mas de agentes do governo de Basshar Al Assad. A cobertura jornalista nesses locais exige assumir riscos cada vez maiores. Sem presença in loco o máximo que pode ser feito é isto: análise, e notas com dados oficiais e postagens online. 

Essa narrativa reducionista parece algo que sairia de uma caricatura maliciosa de um esquerdista, mas não é. É uma narrativa torpe recorrente por certos ativistas, coletivos e páginas de esquerda que parecem nunca ter estudado nada sobre como o mundo funciona, se prendendo a uma narrativa pronta e simplória de "opressor e oprimido". Os mesmos que repetidas vezes pintam o terrorismo como sendo "a reação do oprimido contra o imperialismo". E bizarramente, as mesmas pessoas que hoje tentam reescrever a história dizendo que a imprensa não deu uma única linha sobre as duas guerras mais noticiadas da história: Iraque e Afeganistão. Que não cobriu em nada o caos na Síria - uma história continuamente reportada apesar a impossibilidade de se conseguir um jornalista no front seguramente. 

Não: é tudo simplesmente "o racismo", só isso. Fadiga de Compaixão, familiaridade, proximidade, critérios de noticiabilidade, logística, tempo, imprevisibilidade, relevância, importância geopolítica, proximidade cultural, nada disso importa: é só racismo e a luta do oprimido contra o opressor. Só isso. Um simples mundo maniqueísta que o único critério de noticiabilidade é "tem gente branca? não? joga fora". Um mundo em que toda história pode ser coberta 100%, e que não há motivo para fazer uma seleção de pautas, de intensidade, de tempo de cobertura, de relevância: é malicia mesmo. 

Temos 42 conflitos armados em 2015. Isto descontando eventos inesperados e imprevisíveis (como eventos de violência extrema em locais onde eles não são recorrentes). Não há como esperar que um conflito em que a obtenção de informação é bloqueada por barreiras linguísticas, a infraestrutura de transmissão de informação é precária, e o risco para os jornalistas envolvidos nessa cobertura é elevado (a Nigéria é o segundo país da Africa subsaariana onde a morte de jornalistas é tratada com mais impunidade, segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas) seja tão coberto quanto um evento cuja cobertura enfrenta menos obstáculos. O caso específico da Síria é um de risco extremo: em 2014, 19 jornalistas foram assassinados no país. Tampouco há como cobrir todos estes eventos: não existem correspondentes de guerra para tanto, o jornalista internacional e o correspondente de guerra são cada vez mais uma espécie em extinção, sendo substituídos por "citizen journalists" e fontes oficiais com frequência cada vez maior, e essas fontes são enviesadas, limitadas e não raro, pouco confiáveis - basta ver a frequência com a qual fotos de conflitos são postadas por citizen journalists em redes sociais como pertencendo a contextos, locais e épocas distintas de sua origem, para pressionar uma reação da imprensa. 

Um fator importante a ser lembrado na cobertura de guerra - como se aprendeu bem com a cobertura 24hrs do Iraque e do Afeganistão - é que os eventos de uma guerra são "tédio pontuado com medo" e ações de rotina, como nota Robin Brown, devido a cobertura ser muito mais rápida do que os eventos. O que preenche a imprensa não com reportagem (que rapidamente se torna repetitiva) mas com especulação e análise - e o trabalho da mídia molda como o conflito é percebido e como os governos respondem a situação. Isso, por sua vez, fortemente reduziu a capacidade destes governos em definir como seus cidadãos enxergam a guerra. Mesmo a analise pode alcançar um ponto em que, para as audiências e para os jornalistas, se torna cansativa e enfadonha: há um limite para quantas vezes o público pode ouvir as mesmas coisas sendo ditas a respeito do que deve ser feito, quem são as partes e quais são as implicações. E este limite de tolerância parece ter se reduzido com o advento das redes sociais (nota minha). O resultado para o nosso caso em especial, da cobertura precária de certos conflitos? Reduz se o quanto o público está disposto a ouvir sobre um conflito. E o interesse deste público em buscar informações sobre.  

Criticas devem ser bem pensadas. Critérios de noticiabilidade existem, e alegar que tudo se resume em racismo e preconceito vai além da ignorância: é simplificar e desmerecer o trabalho de jornalistas que fazem o possível para cobrir a quantidade imensa de histórias que chegam todos os dias, e ignora que simplesmente é impossível cobrir igualmente todas as tragédias. É cruel, mas algumas pesam mais - talvez porque suas ramificações vão além de um conflito local. Os atentados de Paris foram um prenúncio do que está por vir, e deflagaram uma onda de xenofobia pelo Globo. O que ocorreu na Nigéria foi um capitulo de uma história que tende a se manter presa a Nigéria. Garissa, por mais horrível que tenha sido, é uma questão Quêniana. O Boko Haram e a milicia Al-Shabab são grupos locais. Suas ações são tragédias e atrocidades, sim. Mas que afetam os habitantes destes países, e que tem implicações no resto do globo. O EI? Se demonstrou além de fronteiras. Isso preocupa, isso causa medo. Isso quebra os padrões de ação do grupo. Isso é extremamente noticiável - e não só porque "afetou gente branca e o seu sonho de turismo". 


Obviamente que isso não isenta a imprensa de suas falhas recorrentes, de sua conivência com grupos de interesse, ou o poder que audiência e financiamento tem em determinar suas pautas. Ou sequer que certos grupos de imprensa (mas de forma alguma toda a imprensa, como tem sido sugerido) sejam abertamente racistas e xenófobos em sua decisão de pauta. Menos ainda que não haja muito a ser repensado em como essa seleção é feita, e no framing dessas histórias (o que é outra questão, não ligada tanto a o que é coberto, mas como é coberto). Mas reduzir tudo a uma narrativa simplista de "preconceito e falta de empatia" beira o absurdo.

Sim: há um problema grave com o trabalho da imprensa. Um problema que vai além de suas limitações operacionais, e que incluí os impactos do ciclo de noticias 24hrs, os interesses do público e dos acionistas, a fadiga de compaixão das audiências - fartas de ouvirem as mesmas histórias, a ponto de se tornarem apáticas - e o sucateamento das equipes de reportagem. Isso tudo vai mundo além de mero "são negros/árabes/mexicanos, quem liga". Tem muito a mudar, e muito a melhorar. Mas criar uma narrativa maniqueísta que atribuí os problemas a malícia não vai fazer isso. 

Quanto a maneira em que a mídia cobre terrorismo, encerro com uma recomendação de literatura básica: Framing Terrorism: The News Media, the Government and the Public. É uma excelente análise das relações que cercam o jornalismo sobre terrorismo, e de onde vem as colocações de Robin Brown acima. 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Não, o inimigo de meu inimigo não é meu amigo

Os eventos recorrentes no Oriente Médio e sua repercussão nos últimos dias revelam a prevalência de um dos mais preocupantes adágios populares: “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Em sua sana por sentido, retribuição ou “justiça”, formadores de opinião e leigos se mostram muito dispostos a relevar quaisquer ações condenáveis para encaixar seus atores como os “heróis” de sua narrativa.

Não é de hoje que essa mentalidade tem marcado a política internacional e as relações sociais. É um tema recorrente, no “cidadão de bem” que apoia a ação de justiceiros e ignora seus crimes, aos governos ao redor do mundo que financiam terroristas para fazer o que eles não podem, passando por nosso legislativo e nossos revoltados que apoiam um corrupto “seu” para derrubar “a corrupção”.

Algumas vezes a motivação tem toques de pragmatismo: durante a ascensão do nazismo, o então primeiro ministro da Inglaterra, Neville Chamberlain adotou uma política de apaziguamento em relação a Alemanha. Os crimes nazistas eram uma questão “menor” contanto que eles contivessem “as hordas comunistas”. Seu sucessor, Winston Churchill, fez o oposto, se aliando temporariamente aos “vermelhos” para enfrentar Hitler. É inegável, no entanto, que Chamberlain simpatizava com Hitler. Ou que Churchill não via problemas em quebrar a aliança assim que Hitler caísse.

Durante a guerra fria, os EUA e a Rússia financiaram guerrilheiros e combatentes para travar, nos Estados “não alinhados” a guerra ideológica que não podiam travar abertamente. As tentativas dos dois de controlar o Irã resultaram na revolução iraniana, a primeira das teocracias fundamentalistas islâmicas.

Para combater o Irã, os EUA armaram Saddam Hussein - que depois se tornou seu inimigo ao invadir o Kuwait. No Afeganistão, os Talibãs foram a “peça chave” para derrubar os soviéticos e imediatamente se viraram contra seus tutores.

Por sua vez, a União Soviética armou e treinou tiranetes como Pol Pot e a dinastia Kim, que a moda de Stalin rapidamente trataram de reescrever sua história em uma narrativa sem a ajuda soviética.

Na América do Sul e na África, as consequências dos golpes de estado e das milícias criadas pelas duas potências perdura até hoje - e poucos destes grupos serviram os papéis designados por seus treinadores.

Estes casos, assim como o supracitado financiamento a terroristas e guerrilheiros (recurso tão velho quanto a própria noção de relações internacionais) são manifestações cruéis e claras da Realpolitik, sem o verniz idealista do discurso público. Mais preocupada com as implicações reais da política do que a construção ideológica, a Realpolitik é um jogo complexo e sujo, que pede ocasionais alianças com quem tem inimigos em comum - e essas alianças não raro resultam em problemas graves para administrações futuras.

Hoje, a União Européia e os EUA têm como “aliado” a Arábia Saudita ,tão autoritária, violenta e anti-ocidente quanto o Estado Islâmico, mas de valor estratégico. A incoerência faz parte do jogo. Infelizmente.

Essa Realpolitik desconcertante se viu durante a Primavera Árabe e nas guerras do Iraque e do Afeganistão  - quando potências ocidentais armaram rebeldes, senhores da guerra e milícias não alinhadas com seus interesses para derrubar um “inimigo em comum”.

De parte deste plano surgiu o atual Estado Islâmico.  Que por sua vez foi respondido com novas alianças “de necessidade”, com grupos antes considerados terroristas - como a PKK curda e a Frente Islâmica da Síria.

Mas outros casos, mais preocupantes, advém de um idealismo torto. Movidos por distorções ideológicas, tecem uma nova narrativa onde o inimigo de seu inimigo é seu amigo não por “política”, mas por “ser heroico”.

É o caso de quem defende a ditadura por “ter combatido os comunistas”, de quem defende abusos da polícia por que “ela mata bandido”, e de quem defende incondicionalmente as ações militares no Oriente Médio “por matarem terrorista”. Ou de quem exalta a os movimentos de extrema direita em ascensão na Europa por “combaterem o terrorismo”. O conservadorismo sempre foi afeito a louvar as defesas violentas do status quo.

Mas é também o discurso de uma parcela não negligenciável da esquerda. Em sua oposição (justificada) ao imperialismo e a hegemonia americana, alguns pensadores e simpatizantes da esquerda veem em qualquer inimigo dos EUA um herói contra o imperialismo, vítima de calúnia e perseguição. O professor de jornalismo Kevin Williams nota que em tempos de guerra, o jornalismo as vezes aje como se houvesse algo “mais importante que a verdade”. Essa mentalidade parece ter contaminado os opinadores de esquerda, especialmente nessa era de comunicação instantânea.

Assim, criam obras fantásticas de revisionismo histórico: O Japão imperial passa a pobre vitima “da sede de sangue” Americana. A Al Qaeda passa de uma milícia teocrática para “uma revolta contra o imperialismo”. Slobodan Milosevic deixa de ser um genocida corrupto que coordenou uma limpeza étnica no Kosovo para ser um “nacionalista punido por resistir aos opressores”. Ghadaffi e Assad tiveram seu histórico de repressão apagado em prol de uma narrativa de “resistência heróica”, que minimiza os protestos e a insurgencia que tomou a Líbia e a Síria como sendo “mercenários ocidentais”. O complexo caos da Ucrania, marcado por anseios de poder e corrupção por agentes ocidentais e russos vira uma trama maniqueísta onde a heróica Rússia “garante a autodeterminação dos povos” contra a tirania do ocidente.

Putin talvez seja o melhor exemplo desta mentalidade entre a esquerda. O ex-agente KGB ligado às oligarquias conservadoras da Rússia jamais escondeu sua tara militarista. Mas suas intervenções na Estônia, na Ossétia, na Ucrânia e na Geórgia,  ao invés de criticadas, foram aplaudidas ou ignoradas pelos mesmos que condenavam os EUA por suas intervenções militares. Apesar do seu governo ser autoritário, expansionista, reacionário e extremamente homofóbico - progressivamente cerceando os direitos de lgbts no país - Putin é visto por muitos como um herói progressista, somente e tão somente por sua oposição aos EUA. De sua própria política externa violenta e imperialista, nada é dito.

E agora, em reposta aos eventos em Paris, há quem tente reescrever a narrativa do Estado Islâmico como “a fúria dos povos oprimidos”. O estupro sistemático,  a homofobia violenta, o ódio teocrático, as execuções e o culto apocalíptico - tudo isto é jogado sob o tapete para pintar a situação como um caso simples de “oprimidos se virando contra a tirania do ocidente”. Na melhor das intenções, fantasiam um dos piores grupos da atualidade como heróis incompreendidos. Sem imaginar que seus heróis que “feriram o coração do imperialismo europeu” não hesitariam em fazer o mesmo contra eles. E ignorando que muito mais do que atacar “o imperialismo ocidental”, o EI foca sua tirania naqueles que essa parcela da esquerda julga defender: os já violentados cidadãos do Oriente Médio.

O inimigo do meu inimigo raramente é meu amigo. É só o inimigo do meu inimigo. E pode muito bem ser dos males o pior. Da direita reacionária, movida primariamente a emoção, não se deve esperar muito diferente. Mas do resto do debate político, na direita e na esquerda, especialmente de quem diz defender direitos humanos, a verdade tem de vir antes. Não aquilo que mais “interessa” a sua narrativa de bem e mal, certo e errado. Não dá para defender ou se aliar com terroristas por conveniência, ou por que eles validam nossos vieses. Ou que se admita o apoio junto com o que está apoiando - não a versão sanitária do que apoia.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Paris e o ódio

Em uma charge, o desdém pelas vítimas de Paris, disfarçado
de "critica a falta de compaixão com a Síria". Paris não foi
"um dedinho machucado" - tal comparação é tão cínica
quanto o vídeo propaganda isralense no ano passado, pintando
as mortes em Gaza como "um peteleco no nariz".
Domingo, com certo atraso, eu escrevi sobre os terríveis eventos que se sucederam em Paris na última sexta-feira. Hoje, o assunto ainda é Paris - inevitável que tal enormidade não seja discutida exaustivamente. Mas o foco deste texto é outro aspecto: o ódio fomentado pelos eventos que sucederam.

Comecemos pelo óbvio: enquanto o fim de semana de fato foi marcado por demonstrações de solidariedade para com as vítimas, e o povo francês demonstrou, em grande parte, uma forte rejeição aos discursos de ódio, estes ganharam força. A islamofobia vive, e tem ganho força no discurso político oficial. Não são poucos os comentários culpando toda a comunidade islâmica pelos eventos, ou pintando-os todos como terroristas.

Da mesma maneira, a xenofobia ganhou força. A França fechou as fronteiras e a mobilidade entre os países europeus se vê ameaçada com a suspensão temporária do tratado de Schengen. A descoberta de um passaporte sírio entre os terroristas serviu de combustível para o argumento odioso de que os refugiados seriam “agentes infiltrados”. Entre os grupos mais conservadores, volta a pauta deportar os refugiados. Em várias cidades, mesquitas foram atacadas.

Entre os que se destacaram por este discurso simplista contra os refugiados no Brasil estavam o pastor Silas Malafaia, que de alguma maneira envolveu o PT na história, e o colunista da Veja Felipe Moura Brasil, que se atreveu a dar uma “explicação definitiva para o terrorismo”. Já nos EUA e na Europa, os mesmos partidos responsáveis por gerar o berço perfeito para o terrorismo quiseram oferecer soluções “finais”: deportar os refugiados, e invadir a Síria. O pré-candidato republicano Donald Trump ainda tentou usar da tragédia para defender o porte de armas.

Mas não é só de velhos ódios conservadores que o discurso de ódio pós Bataclan vive. Disfarçando seu discurso como “indignação pela falta de cobertura de outros atentados”, usuários de redes sociais desmereceram a tragédia. A pauta do fim de semana era “tá, mas e ‘x’”? Alguns dos casos usados como “prova” de que estariam ignorando outras tragédias haviam sido cobertos a exaustão - como o massacre na universidade de Garissa, no Quênia, em Abril, a chacina de Osasco, ou o incêndio na Boate Kiss, no ano passado. E em sua maioria, eram casos datados, pautas frias que não estavam mais no debate mais caloroso da esfera pública,  ou que careciam de uma cobertura mais aprofundada devido a problemas que iam muito além de “falta de interesse”.

Um dos temas mais comuns foi a acusação de “indignação seletiva” por falarem de Paris mas não de Mariana -  a cidade de Minas Gerais devastada pelo rompimento de represas da companhia de mineração Samarco. A indignação é compreensível.  Mas vários dos comentários revoltados acusavam quem se compareceu com Paris de “racismo” e “complexo de colonizado”. Ao mesmo tempo, alegavam que não criticavam pessoas, “mas a mídia”.

A mentalidade ignora, claramente, que o evento parisiense é mais recente, e não sofre (infelizmente para o Rio Doce) dos mesmos entraves à cobertura jornalística que uma tragédia sem precedentes como a que ocorreu em Paris (não inocentado o jornalismo por não superar esses entraves. Mas há um número infinitamente maior de jornalistas em Paris do que em Mariana, ou no Quênia) - e que espalha ondas preocupantes sobre o globo. Da mesma maneira, os eventos não são comparáveis por um motivo simples: embora a ação da Samarco tenha sido sem dúvidas criminosa em sua negligência com a segurança e o ambiente,  não houve uma ruptura deliberada da represa* - diferente de atentados organizados e premeditado visando causar o terror.

Latuff, novamente errando com a melhor das intenções:
O terror não é "retribuição". 
Mas alguns foram além da mera revolta, e entraram de fato no ódio. Comentários como “Digo mais: foi pouco”, “das mortes que os franceses causaram ninguém fala nada” e “eles pediram isso” brotavam e desapareciam das redes sociais. Alguns comentaristas, tentando se passar por peritos, acharam que a pauta era o ataque a revista Charlie Hebdo, em janeiro; outros, trataram de inocentar o Estado Islâmico e jogar a culpa “única e exclusivamente” nos EUA, nas potências ocidentais ou na França. Caso da charge de Carlos Latuff ao lado - que pinta o EI como ‘agente da retribuição”.  

Outros ainda acusaram o governo francês de “demonizando o Estado Islâmico” e alguns chamaram os oito terroristas de “combatentes da liberdade” e “heróis contra o imperialismo”. Tentando se opor a islamofobia crescente, defendem um grupo que mata primariamente muçulmanos, pintam radicais como não sendo responsáveis por seus atos, e fomentam o discurso de que “muçulmano = terrorista”.

Contrariando a lógica simplista que assola os dois lados da política, o terrorismo não é “uma reação dos povos oprimidos ao imperialismo”, e nem ocorre “porque eles nos odeiam por que nos odeiam”. Existem causas longas e complexas, assim como há um fator importante de ódio naturalizado e da ideia de que ações violentas contra alvos não combatentes podem pressionar estados a tomarem as ações que grupos radicais querem. No caso do Estado Islâmico, no entanto, há de se levar em conta que nada difere o grupo da KKK ou da infame Aum Shinrikyo. São extremistas religiosos convictos da retidão de suas ações. A escolha do Bataclan como alvo não foi ‘uma reação ao imperialismo’, mas como afirma o próprio grupo, porque o teatro era "onde centenas de infiéis se reuniam em uma festa de prostituição e devassidão".


Vivemos em uma época bizarra. A violência como solução para conflitos fracassou - é de sua natureza ser incapaz de resolver algo de forma duradoura. Mas na alvorada do século XXI, a violência se naturalizou e passou a ser pintada como “justa”. O discurso justificador - válido em muitos casos, mas de forma alguma neste - de que “a revolta do oprimido não deve ser confundida com a violência do opressor” não pode servir de desculpa para mortes. Não há nada de heróico no que o Estado Islâmico fez. Mas há uma abundância de pessoas que parecem achar que há, ou que devam ser eximidos de culpa.

Este é o “admirável mundo novo” que se estende diante de nós após Paris: um mundo em que o ódio e a violência são vistos como uma forma deturpada de justiça, como se os crimes de gerações e administrações passadas pudessem ser vingados com a morte de civis que “mereceram” e os crimes dos “vingadores” pudessem ser lavados no sangue de outros “da gente dele”.

Irônico que certas pessoas, para se opor a guerra, defendam quem começa outra guerra. E estranho que um dos discursos mais apropriados para os belicosos em todo o globo venha de um programa de TV - ostensivamente, infantil. 

*Isso obviamente não exime a Samarco e a Vale de culpa - mas chamá-las de “terroristas” é banalizar o termo terrorismo, e atribuir malícia ao que é facilmente explicado por ganância e estupidez.