terça-feira, 17 de novembro de 2015

Não, o inimigo de meu inimigo não é meu amigo

Os eventos recorrentes no Oriente Médio e sua repercussão nos últimos dias revelam a prevalência de um dos mais preocupantes adágios populares: “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Em sua sana por sentido, retribuição ou “justiça”, formadores de opinião e leigos se mostram muito dispostos a relevar quaisquer ações condenáveis para encaixar seus atores como os “heróis” de sua narrativa.

Não é de hoje que essa mentalidade tem marcado a política internacional e as relações sociais. É um tema recorrente, no “cidadão de bem” que apoia a ação de justiceiros e ignora seus crimes, aos governos ao redor do mundo que financiam terroristas para fazer o que eles não podem, passando por nosso legislativo e nossos revoltados que apoiam um corrupto “seu” para derrubar “a corrupção”.

Algumas vezes a motivação tem toques de pragmatismo: durante a ascensão do nazismo, o então primeiro ministro da Inglaterra, Neville Chamberlain adotou uma política de apaziguamento em relação a Alemanha. Os crimes nazistas eram uma questão “menor” contanto que eles contivessem “as hordas comunistas”. Seu sucessor, Winston Churchill, fez o oposto, se aliando temporariamente aos “vermelhos” para enfrentar Hitler. É inegável, no entanto, que Chamberlain simpatizava com Hitler. Ou que Churchill não via problemas em quebrar a aliança assim que Hitler caísse.

Durante a guerra fria, os EUA e a Rússia financiaram guerrilheiros e combatentes para travar, nos Estados “não alinhados” a guerra ideológica que não podiam travar abertamente. As tentativas dos dois de controlar o Irã resultaram na revolução iraniana, a primeira das teocracias fundamentalistas islâmicas.

Para combater o Irã, os EUA armaram Saddam Hussein - que depois se tornou seu inimigo ao invadir o Kuwait. No Afeganistão, os Talibãs foram a “peça chave” para derrubar os soviéticos e imediatamente se viraram contra seus tutores.

Por sua vez, a União Soviética armou e treinou tiranetes como Pol Pot e a dinastia Kim, que a moda de Stalin rapidamente trataram de reescrever sua história em uma narrativa sem a ajuda soviética.

Na América do Sul e na África, as consequências dos golpes de estado e das milícias criadas pelas duas potências perdura até hoje - e poucos destes grupos serviram os papéis designados por seus treinadores.

Estes casos, assim como o supracitado financiamento a terroristas e guerrilheiros (recurso tão velho quanto a própria noção de relações internacionais) são manifestações cruéis e claras da Realpolitik, sem o verniz idealista do discurso público. Mais preocupada com as implicações reais da política do que a construção ideológica, a Realpolitik é um jogo complexo e sujo, que pede ocasionais alianças com quem tem inimigos em comum - e essas alianças não raro resultam em problemas graves para administrações futuras.

Hoje, a União Européia e os EUA têm como “aliado” a Arábia Saudita ,tão autoritária, violenta e anti-ocidente quanto o Estado Islâmico, mas de valor estratégico. A incoerência faz parte do jogo. Infelizmente.

Essa Realpolitik desconcertante se viu durante a Primavera Árabe e nas guerras do Iraque e do Afeganistão  - quando potências ocidentais armaram rebeldes, senhores da guerra e milícias não alinhadas com seus interesses para derrubar um “inimigo em comum”.

De parte deste plano surgiu o atual Estado Islâmico.  Que por sua vez foi respondido com novas alianças “de necessidade”, com grupos antes considerados terroristas - como a PKK curda e a Frente Islâmica da Síria.

Mas outros casos, mais preocupantes, advém de um idealismo torto. Movidos por distorções ideológicas, tecem uma nova narrativa onde o inimigo de seu inimigo é seu amigo não por “política”, mas por “ser heroico”.

É o caso de quem defende a ditadura por “ter combatido os comunistas”, de quem defende abusos da polícia por que “ela mata bandido”, e de quem defende incondicionalmente as ações militares no Oriente Médio “por matarem terrorista”. Ou de quem exalta a os movimentos de extrema direita em ascensão na Europa por “combaterem o terrorismo”. O conservadorismo sempre foi afeito a louvar as defesas violentas do status quo.

Mas é também o discurso de uma parcela não negligenciável da esquerda. Em sua oposição (justificada) ao imperialismo e a hegemonia americana, alguns pensadores e simpatizantes da esquerda veem em qualquer inimigo dos EUA um herói contra o imperialismo, vítima de calúnia e perseguição. O professor de jornalismo Kevin Williams nota que em tempos de guerra, o jornalismo as vezes aje como se houvesse algo “mais importante que a verdade”. Essa mentalidade parece ter contaminado os opinadores de esquerda, especialmente nessa era de comunicação instantânea.

Assim, criam obras fantásticas de revisionismo histórico: O Japão imperial passa a pobre vitima “da sede de sangue” Americana. A Al Qaeda passa de uma milícia teocrática para “uma revolta contra o imperialismo”. Slobodan Milosevic deixa de ser um genocida corrupto que coordenou uma limpeza étnica no Kosovo para ser um “nacionalista punido por resistir aos opressores”. Ghadaffi e Assad tiveram seu histórico de repressão apagado em prol de uma narrativa de “resistência heróica”, que minimiza os protestos e a insurgencia que tomou a Líbia e a Síria como sendo “mercenários ocidentais”. O complexo caos da Ucrania, marcado por anseios de poder e corrupção por agentes ocidentais e russos vira uma trama maniqueísta onde a heróica Rússia “garante a autodeterminação dos povos” contra a tirania do ocidente.

Putin talvez seja o melhor exemplo desta mentalidade entre a esquerda. O ex-agente KGB ligado às oligarquias conservadoras da Rússia jamais escondeu sua tara militarista. Mas suas intervenções na Estônia, na Ossétia, na Ucrânia e na Geórgia,  ao invés de criticadas, foram aplaudidas ou ignoradas pelos mesmos que condenavam os EUA por suas intervenções militares. Apesar do seu governo ser autoritário, expansionista, reacionário e extremamente homofóbico - progressivamente cerceando os direitos de lgbts no país - Putin é visto por muitos como um herói progressista, somente e tão somente por sua oposição aos EUA. De sua própria política externa violenta e imperialista, nada é dito.

E agora, em reposta aos eventos em Paris, há quem tente reescrever a narrativa do Estado Islâmico como “a fúria dos povos oprimidos”. O estupro sistemático,  a homofobia violenta, o ódio teocrático, as execuções e o culto apocalíptico - tudo isto é jogado sob o tapete para pintar a situação como um caso simples de “oprimidos se virando contra a tirania do ocidente”. Na melhor das intenções, fantasiam um dos piores grupos da atualidade como heróis incompreendidos. Sem imaginar que seus heróis que “feriram o coração do imperialismo europeu” não hesitariam em fazer o mesmo contra eles. E ignorando que muito mais do que atacar “o imperialismo ocidental”, o EI foca sua tirania naqueles que essa parcela da esquerda julga defender: os já violentados cidadãos do Oriente Médio.

O inimigo do meu inimigo raramente é meu amigo. É só o inimigo do meu inimigo. E pode muito bem ser dos males o pior. Da direita reacionária, movida primariamente a emoção, não se deve esperar muito diferente. Mas do resto do debate político, na direita e na esquerda, especialmente de quem diz defender direitos humanos, a verdade tem de vir antes. Não aquilo que mais “interessa” a sua narrativa de bem e mal, certo e errado. Não dá para defender ou se aliar com terroristas por conveniência, ou por que eles validam nossos vieses. Ou que se admita o apoio junto com o que está apoiando - não a versão sanitária do que apoia.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Paris e o ódio

Em uma charge, o desdém pelas vítimas de Paris, disfarçado
de "critica a falta de compaixão com a Síria". Paris não foi
"um dedinho machucado" - tal comparação é tão cínica
quanto o vídeo propaganda isralense no ano passado, pintando
as mortes em Gaza como "um peteleco no nariz".
Domingo, com certo atraso, eu escrevi sobre os terríveis eventos que se sucederam em Paris na última sexta-feira. Hoje, o assunto ainda é Paris - inevitável que tal enormidade não seja discutida exaustivamente. Mas o foco deste texto é outro aspecto: o ódio fomentado pelos eventos que sucederam.

Comecemos pelo óbvio: enquanto o fim de semana de fato foi marcado por demonstrações de solidariedade para com as vítimas, e o povo francês demonstrou, em grande parte, uma forte rejeição aos discursos de ódio, estes ganharam força. A islamofobia vive, e tem ganho força no discurso político oficial. Não são poucos os comentários culpando toda a comunidade islâmica pelos eventos, ou pintando-os todos como terroristas.

Da mesma maneira, a xenofobia ganhou força. A França fechou as fronteiras e a mobilidade entre os países europeus se vê ameaçada com a suspensão temporária do tratado de Schengen. A descoberta de um passaporte sírio entre os terroristas serviu de combustível para o argumento odioso de que os refugiados seriam “agentes infiltrados”. Entre os grupos mais conservadores, volta a pauta deportar os refugiados. Em várias cidades, mesquitas foram atacadas.

Entre os que se destacaram por este discurso simplista contra os refugiados no Brasil estavam o pastor Silas Malafaia, que de alguma maneira envolveu o PT na história, e o colunista da Veja Felipe Moura Brasil, que se atreveu a dar uma “explicação definitiva para o terrorismo”. Já nos EUA e na Europa, os mesmos partidos responsáveis por gerar o berço perfeito para o terrorismo quiseram oferecer soluções “finais”: deportar os refugiados, e invadir a Síria. O pré-candidato republicano Donald Trump ainda tentou usar da tragédia para defender o porte de armas.

Mas não é só de velhos ódios conservadores que o discurso de ódio pós Bataclan vive. Disfarçando seu discurso como “indignação pela falta de cobertura de outros atentados”, usuários de redes sociais desmereceram a tragédia. A pauta do fim de semana era “tá, mas e ‘x’”? Alguns dos casos usados como “prova” de que estariam ignorando outras tragédias haviam sido cobertos a exaustão - como o massacre na universidade de Garissa, no Quênia, em Abril, a chacina de Osasco, ou o incêndio na Boate Kiss, no ano passado. E em sua maioria, eram casos datados, pautas frias que não estavam mais no debate mais caloroso da esfera pública,  ou que careciam de uma cobertura mais aprofundada devido a problemas que iam muito além de “falta de interesse”.

Um dos temas mais comuns foi a acusação de “indignação seletiva” por falarem de Paris mas não de Mariana -  a cidade de Minas Gerais devastada pelo rompimento de represas da companhia de mineração Samarco. A indignação é compreensível.  Mas vários dos comentários revoltados acusavam quem se compareceu com Paris de “racismo” e “complexo de colonizado”. Ao mesmo tempo, alegavam que não criticavam pessoas, “mas a mídia”.

A mentalidade ignora, claramente, que o evento parisiense é mais recente, e não sofre (infelizmente para o Rio Doce) dos mesmos entraves à cobertura jornalística que uma tragédia sem precedentes como a que ocorreu em Paris (não inocentado o jornalismo por não superar esses entraves. Mas há um número infinitamente maior de jornalistas em Paris do que em Mariana, ou no Quênia) - e que espalha ondas preocupantes sobre o globo. Da mesma maneira, os eventos não são comparáveis por um motivo simples: embora a ação da Samarco tenha sido sem dúvidas criminosa em sua negligência com a segurança e o ambiente,  não houve uma ruptura deliberada da represa* - diferente de atentados organizados e premeditado visando causar o terror.

Latuff, novamente errando com a melhor das intenções:
O terror não é "retribuição". 
Mas alguns foram além da mera revolta, e entraram de fato no ódio. Comentários como “Digo mais: foi pouco”, “das mortes que os franceses causaram ninguém fala nada” e “eles pediram isso” brotavam e desapareciam das redes sociais. Alguns comentaristas, tentando se passar por peritos, acharam que a pauta era o ataque a revista Charlie Hebdo, em janeiro; outros, trataram de inocentar o Estado Islâmico e jogar a culpa “única e exclusivamente” nos EUA, nas potências ocidentais ou na França. Caso da charge de Carlos Latuff ao lado - que pinta o EI como ‘agente da retribuição”.  

Outros ainda acusaram o governo francês de “demonizando o Estado Islâmico” e alguns chamaram os oito terroristas de “combatentes da liberdade” e “heróis contra o imperialismo”. Tentando se opor a islamofobia crescente, defendem um grupo que mata primariamente muçulmanos, pintam radicais como não sendo responsáveis por seus atos, e fomentam o discurso de que “muçulmano = terrorista”.

Contrariando a lógica simplista que assola os dois lados da política, o terrorismo não é “uma reação dos povos oprimidos ao imperialismo”, e nem ocorre “porque eles nos odeiam por que nos odeiam”. Existem causas longas e complexas, assim como há um fator importante de ódio naturalizado e da ideia de que ações violentas contra alvos não combatentes podem pressionar estados a tomarem as ações que grupos radicais querem. No caso do Estado Islâmico, no entanto, há de se levar em conta que nada difere o grupo da KKK ou da infame Aum Shinrikyo. São extremistas religiosos convictos da retidão de suas ações. A escolha do Bataclan como alvo não foi ‘uma reação ao imperialismo’, mas como afirma o próprio grupo, porque o teatro era "onde centenas de infiéis se reuniam em uma festa de prostituição e devassidão".


Vivemos em uma época bizarra. A violência como solução para conflitos fracassou - é de sua natureza ser incapaz de resolver algo de forma duradoura. Mas na alvorada do século XXI, a violência se naturalizou e passou a ser pintada como “justa”. O discurso justificador - válido em muitos casos, mas de forma alguma neste - de que “a revolta do oprimido não deve ser confundida com a violência do opressor” não pode servir de desculpa para mortes. Não há nada de heróico no que o Estado Islâmico fez. Mas há uma abundância de pessoas que parecem achar que há, ou que devam ser eximidos de culpa.

Este é o “admirável mundo novo” que se estende diante de nós após Paris: um mundo em que o ódio e a violência são vistos como uma forma deturpada de justiça, como se os crimes de gerações e administrações passadas pudessem ser vingados com a morte de civis que “mereceram” e os crimes dos “vingadores” pudessem ser lavados no sangue de outros “da gente dele”.

Irônico que certas pessoas, para se opor a guerra, defendam quem começa outra guerra. E estranho que um dos discursos mais apropriados para os belicosos em todo o globo venha de um programa de TV - ostensivamente, infantil. 

*Isso obviamente não exime a Samarco e a Vale de culpa - mas chamá-las de “terroristas” é banalizar o termo terrorismo, e atribuir malícia ao que é facilmente explicado por ganância e estupidez.

domingo, 15 de novembro de 2015

Paris, o Terror e o Futuro

Cristo Redentor, nas cores da Tricolore. O que vem agora?
A tragédia da última sexta-feira (13/11) deixou marcas profundas. Em uma série de ataques pelos quais o Estado Islâmico assumiu autoria, 128 pessoas perderam suas vidas. 100 delas em apenas um dos ataques: o cerco ao teatro Bataclan, onde a banda Eagles of Death Metal realizava um show. Um banho de sangue sem igual na história recente da capital francesa, incomparável ao caso mais próximo - o ataque a revista Charlie Hebdo no começo do ano.

Mais ao sul e ao leste, em Beirute, outro ataque - também atribuída ao grupo extremista do Iraque e da Síria - Matou 44 pessoas e deixou 239 feridos. Em Bagdá, um atentado suicida em um funeral deixou 18 mortos e 41 feridos. Um dia trágico para Paris, para Beirute, e para Bagdá. E mais do que tudo, um dia trágico para a humanidade.

São cenas de insanidade, sinais de um mundo que perdeu as estribeiras. Jogado ao caos após tentativas frustradas de estabelecer uma nova - ou qualquer - ordem no Oriente Médio. Em todos os casos, foram “retribuição”: contra a França e o Líbano por sua atuação nos bombardeios ao EI, e no Iraque contra o apoio do falecido ao governo local. O Estado Islâmico deixou claro sua intenção de repetir o massacre - e deu a entender que os dias de paz da "Cidade Luz" estavam acabados, assim como estava acabada a paz dentro do seu território.

O presidente da França, François Hollande, chamou a ação em Paris de “declaração de Guerra”, e fechou as fronteiras. O Papa Francisco descreveu os eventos como “o começo da terceira guerra mundial”. Autoridades muçulmanas condenaram veementemente os ataques. Líderes mundiais manifestaram solidariedade com a França. E no horizonte,  o espectro da guerra se reerguia.

Mas uma guerra contra quem? A vaga “guerra ao terror” da década passada se mostrou um fracasso desastroso, que nos gerou o “demônio do século XXI”. Para combater o terrorismo islâmico, as grandes potências geraram um cenário de violência e alienação para um quarto do mundo. Hostilizados pelo ocidente e agredidos em nome do combate ao “terror”, jovens muçulmanos se tornaram presa fácil para o fanatismo. E por extensão do culto apocalíptico e violento que é o Estado Islâmico.

Mas ao mesmo tempo, não é possível alegar, como alguns têm feito, que a França “merecia” ou está “pagando por suas ações”. Menos ainda dizer, ingenuamente, que “é tudo culpa dos Estados Unidos, só deles”. Querendo ou não aceitar essa realidade, o EI é responsável por seus atos, assim como os Estados islâmicos são responsáveis por seus crimes e acertos. E por tanto, devem ser cobrados, criticados e responsabilizados pelo que acontece sob sua tutela.

A França, e com ainda maior intensidade os EUA, foram responsáveis por gestar o monstro que viria a ser o EI ao criar o vácuo de poder que desestabilizou a região,  na guerra do Iraque. E novamente ao armar os rebeldes contra o governo de Bassar al Assad na Síria. Mas é um erro muito grande dizer que ao armar esses rebeldes, muitos dos quais extremistas, estivessem deliberadamente armando o EI. Sim, armaram extremistas e terroristas. É inegável. Mas não tinham ciência ou intenção de que criavam tal monstro.

O momento não é para reações impulsivas, e menos ainda para discursos de ódio contra imigrantes, refugiados - que foram para a Europa fugindo justamente dessa insanidade -  muçulmanos ou árabes. A situação exige mais do que foi feito até agora. E por isso não quero dizer mais força. Há de ser pensada outra maneira de lidar com isso. Já dizia Asimov: a violência é o último refúgio do incompetente. E está na hora do mundo mostrar que tem  competência para lidar com quem é incapaz de conviver com o outro.

Estes horrores não podem servir de base para mais violência. Sim, seus perpetradores devem ser punidos. O grupo responsável deve ser encontrado e detido. Mas responder com mais uma guerra "ao terror" é apenas perpetuar o ciclo de violência e gerar mais uma geração de jovens árabes socialmente alienados, violentados sem nada a perder, facilmente seduzidos pelo discurso extremista. O islã não é o inimigo. Mas a cada novo atentado, perpetua-se a narrativa da "religião do terror" - e com ela, o ciclo de violência que mantém essa estúpida guerra "ao terror".

Quanto às vitimas, destes e de outros atentados e operações de guerra, minhas sinceras condolências. Suas mortes não devem servir para tirar mais vidas: fazer isso seria um desserviço à suas vidas, reduzidas a um combustível tolo para vingança em um mundo onde já há vingança de sobra. Se nos rendermos ao impeto de violência e à barbárie, o que nos separa deles, realmente?

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quando um protesto tenta calar a imprensa

Melissa Click: a professora de mídia que chamou "músculo"
para calar a mídia. 
Nesta segunda-feira, Tim Wolfe, presidente da Universidade do Missouri renunciou, após uma série de protestos ligados a lentidão da instituição com casos de racismo no Campus. Esse texto não é sobre este evento, mas um que se seguiu a renúncia de Wolfe. Um com implicações graves quanto a noção de liberdade de imprensa.

Acampados no Quadrângulo do Campus, os estudantes ligados ao movimento #ConcernedStudent1950 (assim nomeado a partir do ano em que os primeiros alunos negros entraram na instituição) declararam o local “um espaço seguro sem mídia”. O que se seguiria era uma demonstração de autoritarismo.

Pouco após a renúncia de Wolfe, membros do protesto cercaram o Quadrângulo aos gritos de “hey hey, ho ho, Reporters have to go”. No Twitter, a conta do movimento destratava a imprensa alegando que “essa história não é sobre você”, e não é: mas ela deve ser coberta. E ao final do dia, o movimento começava outra batalha, contra o jornalismo e o corpo estudantil do curso de jornalismo da Mizzou.


Tim Tai, um veterano de jornalismo a serviço da ESPN.com tentou cobrir as celebrações da renúncia in loco, antes de ser assediado e intimidado por manifestantes alegando que ele “não tem o direito de tirar fotos”. Rejeitando a narrativa do movimento e informando dos seus direitos constitucionais, Tai foi então intimidado por uma administradora da universidade, ligada às fraternidades e sororidades na Mizzou, que alegou que Tai estava “violando os direitos civis dos manifestantes”. A adminstradora, posteriormente identificada como Janna Bazzler, se recusou a se identificar para o estudante, alegando que “seu nome era 1950”.
O confronto foi gravado por outro aluno da instituição, o veterano de história e fotógrafo do jornal da Universidade, o The Maneater, Mark Schierbecker. Schierbecker foi também alvo da ira dos manifestantes, sendo ameaçado pela professora de estudos culturais e mass media Melissa Click - que ante a recusa de Schierbecker em se retirar do espaço público, pediu a ajuda de “músculo” para forçar o repórter a sair. O reitor da escola de jornalismo da universidade de Missouri, Davius Kurpius, condenou a professora e retirou seu título de cortesia dentro da instituição. Kurpius foi só um dos muitos professores de jornalismo nos EUA a condenar Click abertamente.


"Sem mídia - Espaço Seguro":
Descaso com a liberdade de imprensa em
um espaço público.
A justificativa oficial do movimento para esse comportamento era “evitar narrativas desonestas”. Como pretendiam fazer isso é desconhecido. O que se sabe é que, após dois incidentes de agressão verbal e ameaças contra jornalistas do campus, o protesto conseguiu cobertura da imprensa - uma cobertura nada positiva, e que ressalta o comportamento autoritário e censurador adotado por dois adultos envolvidos no incidente.

Tai e Schierbecker fizeram o seu trabalho de forma admirável. O comportamento adotado pelos dois funcionários da instituição não difere em nada de outras tentativas de intimidar jornalistas por parte de políticos (como a expulsão de um jornalista da Univision pelo pré candidato republicano Donald Trump em uma coletiva), empresários e autoridades. E só difere das tentativas de censura de governo ditatoriais pela falta (até o momento) de violência física.

A resposta do movimento e das duas funcionárias - Click e Bazzler - à repercussão foi igualmente negativa.  Enquanto o 1950 tratou de alegar que não impede o trabalho de imprensa contanto que feito por eles mesmos em vídeos postados pelos manifestantes, acesso de profissionais continua barrado a força, as duas duas funcionárias trataram de apagar seus perfis online e recusar respostas e pedidos de entrevistas. O Sistema Grego, das Sororidades e Fraternidades, por sua vez, declarou seu apoio a Bazzler, que considerou ter sido “mal compreendida”.

É compreensível que haja uma falta de confiança na mídia por parte de um movimento ligado a minorias - por sinal, completamente justificado. No entanto, isso não é nem motivo e nem justificativa para expulsar repórteres de um espaço público, alegar que a ela não tem o “direito” de cobrir o ato porque “ a história não é sobre ela” (um argumento que essencialmente anula todo o trabalho da imprensa - afinal, jornalismo não é sobre jornalistas, ou ao menos não deve ser), ou “chamar o músculo” quando esta se recusa a sair. 


A atitude do movimento 1950 gera um precedente perigoso quanto a liberdade de imprensa: a noção de que movimentos sociais tem o direito de expulsar e ameaçar jornalistas no seu meio “por não se sentirem confortáveis”. Isso já tem sido visto em alguns protestos e manifestações aqui no Brasil: em junho de 2013, Caco Barcellos foi expulso aos berros de uma mobilização contra aumentos da tarifa de ônibus em São Paulo. Em novembro passado, um profissional do CQC foi agredido e expulso em uma manifestação contra o governo de Dilma Roussef. Este ano, o Movimento Brasil Livre (MBL) ameaçou e hostilizou jornalistas em uma manifestação no dia 15 de março. Já em novembro, manifestantes pró-Bolsonaro  agrediram verbalmente a equipe do Diário de Pernambuco no Aeroporto de Guararapés, pedindo o retorno da censura.

Independente de qual seu posicionamento político, não é aceitável o uso de “músculo” e intimidação para impedir o trabalho jornalístico, especialmente dentro de espaços públicos. A alegação de que o grupo “se apoderou” ou “tornou aquele um espaço seguro” é irrelevante. A liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia e é absurdo que movimentos que se dizem democráticos - em ambos os lados da política - se vejam no direito de impedir o trabalho da mesma. Isto é uma atitude típica de ditadores, visando que apenas o seu lado seja ouvido, sem contraponto e sem questionamento.


*o caso recebe uma dose extra de ironia quando dois dias antes de seu acesso de autoritarismo, Melissa Click havia convidado a imprensa a vir cobrir o protesto.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Xenofobia, ignorância e as raízes do ódio.

Protesto do grupo xenófobo PEGIDA em fevereiro:
um dentre muitos.
Uma onda de violência tem causado preocupação na Alemanha. Cercado pelo discurso xenofóbico crescente, o país tem visto uma onda de ódio “sem precedentes desde o fim do nazismo” que ameaça a imagem de tolerância que o país lutou para formar, segundo o Der Spiegel. Exemplificando a questão, os ataques contra imigrantes e centros de refugiados triplicaram entre 2014 e 2015 - até outubro, foram 493 ataques - e a gravidade dos atentados aumentou igualmente: onde antes jogavam-se pedras, agora jogam-se molotovs. As velhas pichações deram lugar a manifestações neonazistas e agressões. É fácil imaginar que esses eventos sejam apenas ação de "vândalos" e "bandidos", e que não haja nenhum problema maior a ser resolvido, apenas "criminalidade" sem direção. Mas em dois terços dos ataques na Alemanha, os envolvidos não tinham passagens pela polícia. Algo está levando "cidadãos comuns" a abraçarem a violência como solução para seus medos - e as consequências dessa reação já são bem conhecidas. Os alvos podem mudar, mas o ódio em si? Ele é sempre igual.


Mas o problema não se restringe a Alemanha. O ódio à imigrantes - particularmente os refugiados do Oriente Médio - é um problema global. Nos EUA, no Reino Unido e na França já há discurso partidário pedindo a expulsão dos “terroristas em potencial”. No restante da União Européia, casos de violência contra refugiados são comuns. Ainda no Reino Unido, o próprio caráter dos refugiados como refugiados é questionado por grupos como Britain First e o partido UKIP, com insinuações de que seria uma “Infiltração do estado Islâmico”. Nos EUA, acumulam-se casos de agressão em um país que se vê tomado por protestos armados ao redor de mesquitas. O argumento de todos os casos é de que os muçulmanos são “intrinsicamente violentos”, e portanto temos que usar de mais violência.


Por trás da violência, estão dois discursos repetidos ao longo da história. Um é o discurso xenofóbico, com alegações de que “eles” (os imigrantes) estão aqui para “roubar nossos empregos” e “parasitar o estado”, que são “violentos” e “criminosos”, trazendo miséria e doença para “nossa grande nação”. É um discurso que tem mais influência entre aqueles que se consideram "deixados de lado" em decorrência da vinda de imigrantes: comunidades mais pobres, historicamente negligenciadas, desempregados e os outrora privilegiados. Não sem motivos, o ódio na Alemanha é mais intenso no leste - que deu uma forte guinada para a extrema direita após a queda do muro, quando os sentimentos de abandono e negligência da comunidade nos dois regimes viraram combustível para neonazistas e similares. É um discurso causado por um medo basal de que a nação idealizada deixe de ser como é no seu imaginário, e que outras identidades - estrangeiras e alienígenas ao seu convívio - tomem seu lugar. Como nota Bertrand Russell, “Medo coletivo estimula o instinto de manada, e tende a produzir ferocidade contra aqueles que não são parte da manada”. É exemplificado nos “argumentos” do pré candidato Republicano Donald Trump para se opor a migração oriunda do México: “Eles estão nos enviando estupradores e traficantes, não pessoas boas”.

Tema recorrente: o Islã como bloco monolítico,
medieval e violento. Neste caso, como
a antítese da civilização.
O outro é o perene favorito de estados autoritários, o do “inimigo”. Atualmente, na forma de memes e talking points islamofóbicos, pautados antes na Al Qaeda, hoje no Estado Islâmico. Embora em o discurso declarado seja contra extremistas, o subtexto acusa implicitamente todos os muçulmanos nas ações destes jihadistas. O “terrorista” e o “muçulmano”, no imaginário popular, são um só; Enquanto a retórica de muitos grupos insinua que todos os muçulmanos são “o inimigo”, vários são explícitos em seu ódio. Essa sombra idealizada do islã foi bem descrita por Chris Allen como sendo “o oposto” e a “sombra” da civilização. Em outras palavras, o Bárbaro e o selvagem. Essa imagem popular é o que faz com que sejam aceitáveis as representações desumanizantes do muçulmano vistas em charges políticas, comparadas pelo sociólogo inglês com as imagens de propaganda nazista contra os judeus.

Com isso, as pessoas que estão fugindo da barbárie do Estado Islâmico e da Guerra Civil Síria são vistos como os responsáveis. Na visão xenofóbica, os refugiados não estão fugindo do conflito: estão trazendo ele consigo, seja por não terem “feito o bastante” para encerra-lo... ou por serem “agentes infiltrados” do terrorismo. A noção de muçulmano=terrorista se fez bem clara quando Ahmed Mohammed, 14 anos, levou um relógio de fabricação própria, para mostrar ao seu professor de engenharia. Ao invés de ser parabenizado, Mohammed foi detido, acusado em rede nacional de “levar uma bomba falsa” e atacado por celebridades “racionalistas” como Richard Dawkins e Bill Maher, que se uniram em discurso a conservadores como Bill O’Reilly e Sarah Palin. Agora, depois de um circo midiatico, ofertas de bolsas e desculpas estatais, Mohammed se mudou para o Qatar.

enquanto isso, também nos EUA, o dono de uma loja de armas se vê no direito de estimular a violência contra muçulmanos.

O escritor americano George Bernard Shaw nos lembra que a tendência a xenofobia é proporcional ao quão “insulares” e ignorantes sobre “o outro” as pessoas são. Como ele nota . “Todas as classes, em proporção a sua falta de viagem e familiaridade com a literatura estrangeira, são belicosas, preconceituosas com estrangeiros, e afetas a luta como um esporte cruel. Em suma, cães em suas noções de política externa”. O temor e a xenofobia se dirigem ao “desconhecido”, o outro, aquele cujo nosso conhecimento não tem bases para filtrar a propaganda e a demonização; daí a eficiência hoje em pintar 1,8 bilhões de pessoas como terroristas e simpatizantes do terrorismo, assim como milhares de imigrantes japoneses foram pintados como “traidores em potencial” durante a Segunda Guerra Mundial.


As raízes da xenofobia estão em algo que é disseminado por todos os níveis da esfera pública: os clichês. É fácil manter o discurso de ódio e medo quando o alvo é um construto efêmero e repleto de lugares comuns. Assim como é simples e confortável alegar que aquele cara que você conhece que é muçulmano/haitiano/chinês/judeu é “diferente”, “é um dos bons”, “não é como o resto”. Afinal, se tem uma ideia pronta do “resto”, e enquanto o “resto” for tão deslocado da realidade da pessoa quanto esse clichê... o clichê vence. A mídia tem um papel muito grande na preservação desses clichês, e já passou da hora de exercer um papel em quebrar estes clichês.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Blair, Iraque, e o nascimento do Estado Islâmico




Demorou, mas aconteceu: na semana passada, o ex-Primeiro Ministro britânico Tony Blair reconheceu algo que cientistas políticos diziam há anos. Em entrevista a CNN no último domingo, Blair pediu desculpas pelos erros cometidos na Guerra do Iraque, notando que sem ela o atual problema do Estado Islâmico não existiria.

O político trabalhista Inglês disse não se arrepender de ter removido Saddam Hussein do poder (com razão: o regime de Hussein era um dos mais violentos da região), mas sim dos motivos e resultados da guerra. Baseada em inteligência errônea, a Guerra do Iraque se estendeu por quase nove anos e deixou entre 100 mil e 600 mil mortos. Foi o palco de inovações na arte da guerra e no controle de informações, e no uso de “combatentes aliados”.

Porém, a questão central não é se erraram ou acertaram na invasão, e sim o custo desta para o futuro. Sem um projeto para o futuro do país, as forças da coalizão entraram no Iraque com a ilusão de que derrubado o tirano, a democracia reinaria. No entanto, a realidade foi muito diferente do planejado: com a queda de Saddam,o caos se apoderou do País. E em sequência, o radicalismo ganhou força, dando força a células regionais da Al Qaeda.


Desse caos e do vácuo de poder, as milícias treinadas contra o ditador do partido Baath, os comandantes do antigo regime e “senhores da guerra” regionais se engalfinharam pelo controle. Essa massa de serpentes foi chocada pela mobilização resultante da “Primavera Árabe”. Desses combatentes, deslocados para a Síria visando a queda de Bassar Al Assad, surgiu algo novo, coalescido sob o discurso messiânico de Abu Bakr Al Baghdadi: o Estado Islâmico.

É incontestável que Saddam precisava ser derrubado, e que o Iraque se beneficiou da sua queda. No entanto, os resultados da Guerra do Iraque, reconhecidos por Tony Blair, demonstram a importância de um projeto para o pós guerra, como forma de evitar uma infestação de déspotas e tiranetes.

Agora, dois anos adentro da crise com o Estado Islâmico, a Rússia se envolve diretamente no conflito com o mesmo ímpeto que as forças aliadas fizeram contra Saddam em 2003. Ao mesmo tempo, temerosos de repetir o desastre que foi a intervenção na Líbia, as potências ocidentais armam milicias para combater os extremistas. Termos os mesmos erros outra vez?

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Hímen e a hipocrisia masculina

Sim, essa mentalidade voltou. 
Precisamos falar sobre hipocrisia. Em particular, sobre hipocrisia masculina. De uns dias para cá, grupos de “ativistas dos direitos do homem” retomaram um dos padrões mais machistas para “avaliar o valor de uma mulher”: se ela é virgem ou não. A alegação é de que isso valoriza “a pureza”, mas que pureza é esta?

Não é cobrada dos rapazes esta mesma pureza, muito do contrário: dos garotos é esperado que tenham o máximo possível de “experiência” sexual no mínimo possível de tempo. É um completo paradoxo: os rapazes tem que ser “experientes” e “pegadores”, mas as garotas inocentes, puras e intocadas. E aquelas que satisfazem a vontade desses rapazes? “vagabundas”, “vadias” e outros termos piores.

O culto à virgindade exposto em um texto medievalesco do Diário de Santa Maria, que trata a “donzela virgem” como mercadoria a ser devolvida “se o lacre estiver violado” é um reflexo do machismo que tantos insistem não existir. É uma forma de controlar o corpo e a vida de mulheres e atrelar o seu valor a um ato apenas. Ou a uma membrana de tecido (que os mesmos que a supervalorizam não entendem como funciona).

Eis uma verdade sobre o Hímen: ele não deveria romper, e em grande parte dos casos, ele não rompe. A tradição tola de “averiguar a virgindade” pelo sangramento na primeira vez nada mais é do que um mecanismo de controle e uma desculpa para não respeitar os limites da mulher. Afinal, se “a primeira vez sangra e dói” de qualquer jeito, não há porque se preocupar em fazer com que não seja sofrida.



A parabola machista.
Um velho meme serve de exemplo perfeito desse double standard hipócrita. A imagem (ao lado) compara o homem com uma chave, e a mulher com uma fechadura, insinuando que o homem “pegador” tem mais valor por “abrir mais portas”, enquanto a mulher “oferecida” é inútil pois “abre com qualquer chave”. Mas pessoas não são chaves e trancas, e seu valor não se dá por sua sexualidade.

Não vou me atrever a dizer sobre como as mulheres devem agir quanto a sua sexualidade, salvo dizer que, se o cara te valoriza só por sua “pureza”, ele é um idiota. Mas quanto aos homens, tenho muito a dizer. E pouco de bom.

Criamos padrões impossíveis de serem alcançados, e um senso de “eu mereço isso” que beira o infantil. Não são poucos que desejam uma mulher que seja “uma santa na rua e uma atriz pornô na cama” (e ignoram que a maneira que sexo é retratado em pornografia não condiz com a realidade). Seja o que for o resultado das investidas (indesejadas, muitas vezes), a parte errada nos olhos de muitos rapazes e homens “maduros” é a mulher. Ela aceitou? É uma vadia. Disse não? Frígida. Roupa curta? piriguete. Recatada? “Deve ser uma louca na cama”, é uma fingida. Foi abusada? “Tava pedindo”.

Friendzone: a terra dos "caras legais" que chamam as "amigas"
de vadias quando elas querem ser só amigas. 
Isso quando não se perpetua o mito ridículo da “Friendzone” (o qual admito, já propaguei, já fui um desses idiotas). A ideia absurda de que amizade é uma punição, e de que falsas gentilezas (sim, falsas: se você só é gentil com alguém porque quer entrar nas calças dela, não é gentileza, desculpe me informar) deva ser retribuída em favores sexuais. Se a única coisa para qual você dá valor em uma relação é a possibilidade de “levar ela pra cama”, sinto muito, mas isso não é amizade. E você é um canalha por fingir que valoriza a amizade.

Por tempo demais mulheres tem sido avaliadas por nós homens com base apenas em seu valor sexual e uma noção hipócrita de pureza que as vê como uma conquista (Sim, conquista: a ideia de “moça pura” ´vem da noção de “eu conquistei ela antes de todos”). Isso afeta todas as esferas da sociedade, e o eterno moinho de rumores tranquilamente associa o sucesso de uma mulher a “favores sexuais” ou a sua aparência. O mito da friendzone, tão disseminado entre os millenials demonstra isso ainda mais: a amizade com uma mulher não tem valor sem sexo, e isso é grotescamente errado.

Eis o que tenho a disser para vocês: parem de pensar em mulheres como genitais para serem conquistados. E parem de pensar que elas não tem valor se “já foram tomadas”. A coisa é simples: mulheres são pessoas, deveria ser óbvio. Mas tem gente que tem dificuldade em entender isso. E depois reclamam das “feminazis” (uma comparação que por si só já é um absurdo). É bem simples: deixem de ser idiotas. E ouçam o que as mulheres tem a dizer sobre o seu comportamento.

E uma recomendação de leitura, que demonstra o quão grave é o impacto dessa (e de outras) forma de slut-shaming: I Am not a Slut: Slut-shaming in the Age of the Internet