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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Paris e o ódio

Em uma charge, o desdém pelas vítimas de Paris, disfarçado
de "critica a falta de compaixão com a Síria". Paris não foi
"um dedinho machucado" - tal comparação é tão cínica
quanto o vídeo propaganda isralense no ano passado, pintando
as mortes em Gaza como "um peteleco no nariz".
Domingo, com certo atraso, eu escrevi sobre os terríveis eventos que se sucederam em Paris na última sexta-feira. Hoje, o assunto ainda é Paris - inevitável que tal enormidade não seja discutida exaustivamente. Mas o foco deste texto é outro aspecto: o ódio fomentado pelos eventos que sucederam.

Comecemos pelo óbvio: enquanto o fim de semana de fato foi marcado por demonstrações de solidariedade para com as vítimas, e o povo francês demonstrou, em grande parte, uma forte rejeição aos discursos de ódio, estes ganharam força. A islamofobia vive, e tem ganho força no discurso político oficial. Não são poucos os comentários culpando toda a comunidade islâmica pelos eventos, ou pintando-os todos como terroristas.

Da mesma maneira, a xenofobia ganhou força. A França fechou as fronteiras e a mobilidade entre os países europeus se vê ameaçada com a suspensão temporária do tratado de Schengen. A descoberta de um passaporte sírio entre os terroristas serviu de combustível para o argumento odioso de que os refugiados seriam “agentes infiltrados”. Entre os grupos mais conservadores, volta a pauta deportar os refugiados. Em várias cidades, mesquitas foram atacadas.

Entre os que se destacaram por este discurso simplista contra os refugiados no Brasil estavam o pastor Silas Malafaia, que de alguma maneira envolveu o PT na história, e o colunista da Veja Felipe Moura Brasil, que se atreveu a dar uma “explicação definitiva para o terrorismo”. Já nos EUA e na Europa, os mesmos partidos responsáveis por gerar o berço perfeito para o terrorismo quiseram oferecer soluções “finais”: deportar os refugiados, e invadir a Síria. O pré-candidato republicano Donald Trump ainda tentou usar da tragédia para defender o porte de armas.

Mas não é só de velhos ódios conservadores que o discurso de ódio pós Bataclan vive. Disfarçando seu discurso como “indignação pela falta de cobertura de outros atentados”, usuários de redes sociais desmereceram a tragédia. A pauta do fim de semana era “tá, mas e ‘x’”? Alguns dos casos usados como “prova” de que estariam ignorando outras tragédias haviam sido cobertos a exaustão - como o massacre na universidade de Garissa, no Quênia, em Abril, a chacina de Osasco, ou o incêndio na Boate Kiss, no ano passado. E em sua maioria, eram casos datados, pautas frias que não estavam mais no debate mais caloroso da esfera pública,  ou que careciam de uma cobertura mais aprofundada devido a problemas que iam muito além de “falta de interesse”.

Um dos temas mais comuns foi a acusação de “indignação seletiva” por falarem de Paris mas não de Mariana -  a cidade de Minas Gerais devastada pelo rompimento de represas da companhia de mineração Samarco. A indignação é compreensível.  Mas vários dos comentários revoltados acusavam quem se compareceu com Paris de “racismo” e “complexo de colonizado”. Ao mesmo tempo, alegavam que não criticavam pessoas, “mas a mídia”.

A mentalidade ignora, claramente, que o evento parisiense é mais recente, e não sofre (infelizmente para o Rio Doce) dos mesmos entraves à cobertura jornalística que uma tragédia sem precedentes como a que ocorreu em Paris (não inocentado o jornalismo por não superar esses entraves. Mas há um número infinitamente maior de jornalistas em Paris do que em Mariana, ou no Quênia) - e que espalha ondas preocupantes sobre o globo. Da mesma maneira, os eventos não são comparáveis por um motivo simples: embora a ação da Samarco tenha sido sem dúvidas criminosa em sua negligência com a segurança e o ambiente,  não houve uma ruptura deliberada da represa* - diferente de atentados organizados e premeditado visando causar o terror.

Latuff, novamente errando com a melhor das intenções:
O terror não é "retribuição". 
Mas alguns foram além da mera revolta, e entraram de fato no ódio. Comentários como “Digo mais: foi pouco”, “das mortes que os franceses causaram ninguém fala nada” e “eles pediram isso” brotavam e desapareciam das redes sociais. Alguns comentaristas, tentando se passar por peritos, acharam que a pauta era o ataque a revista Charlie Hebdo, em janeiro; outros, trataram de inocentar o Estado Islâmico e jogar a culpa “única e exclusivamente” nos EUA, nas potências ocidentais ou na França. Caso da charge de Carlos Latuff ao lado - que pinta o EI como ‘agente da retribuição”.  

Outros ainda acusaram o governo francês de “demonizando o Estado Islâmico” e alguns chamaram os oito terroristas de “combatentes da liberdade” e “heróis contra o imperialismo”. Tentando se opor a islamofobia crescente, defendem um grupo que mata primariamente muçulmanos, pintam radicais como não sendo responsáveis por seus atos, e fomentam o discurso de que “muçulmano = terrorista”.

Contrariando a lógica simplista que assola os dois lados da política, o terrorismo não é “uma reação dos povos oprimidos ao imperialismo”, e nem ocorre “porque eles nos odeiam por que nos odeiam”. Existem causas longas e complexas, assim como há um fator importante de ódio naturalizado e da ideia de que ações violentas contra alvos não combatentes podem pressionar estados a tomarem as ações que grupos radicais querem. No caso do Estado Islâmico, no entanto, há de se levar em conta que nada difere o grupo da KKK ou da infame Aum Shinrikyo. São extremistas religiosos convictos da retidão de suas ações. A escolha do Bataclan como alvo não foi ‘uma reação ao imperialismo’, mas como afirma o próprio grupo, porque o teatro era "onde centenas de infiéis se reuniam em uma festa de prostituição e devassidão".


Vivemos em uma época bizarra. A violência como solução para conflitos fracassou - é de sua natureza ser incapaz de resolver algo de forma duradoura. Mas na alvorada do século XXI, a violência se naturalizou e passou a ser pintada como “justa”. O discurso justificador - válido em muitos casos, mas de forma alguma neste - de que “a revolta do oprimido não deve ser confundida com a violência do opressor” não pode servir de desculpa para mortes. Não há nada de heróico no que o Estado Islâmico fez. Mas há uma abundância de pessoas que parecem achar que há, ou que devam ser eximidos de culpa.

Este é o “admirável mundo novo” que se estende diante de nós após Paris: um mundo em que o ódio e a violência são vistos como uma forma deturpada de justiça, como se os crimes de gerações e administrações passadas pudessem ser vingados com a morte de civis que “mereceram” e os crimes dos “vingadores” pudessem ser lavados no sangue de outros “da gente dele”.

Irônico que certas pessoas, para se opor a guerra, defendam quem começa outra guerra. E estranho que um dos discursos mais apropriados para os belicosos em todo o globo venha de um programa de TV - ostensivamente, infantil. 

*Isso obviamente não exime a Samarco e a Vale de culpa - mas chamá-las de “terroristas” é banalizar o termo terrorismo, e atribuir malícia ao que é facilmente explicado por ganância e estupidez.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Davizinho

Davizinho é um cidadão de bem; é uma pessoa direita - respeita as leis, paga seus impostos em dia, trata todos igualmente, luta pela democracia e pela liberdade. É integro e coerente, bem informado e respeitoso.

Ou assim ele gosta de pensar... Davizinho é um tipo bem comum, que repete os mesmos bordões de senso comum para tudo - mas é um cidadão correto e integro, não é?

Quer dizer... ele respeita as leis de verdade né? Nada de errado em comprar contrabando, em piratear, não é? "Bandido bom é bandido morto", diz Davizinho, sua resposta pronta para a violência urbana - mas quando tem que mostrar documentação na blitz, é "abuso de autoridade". Para manifestante, a resposta pronta é bala de borracha - mas pro empresário que usa mão de obra irregular? "O estado tem que tirar a mão da economia". O rapazote que lhe abordou de madrugada? Tem que ser jogado na cadeia pro resto da vida! Agora, o colega que foi processado por racismo? "Ah, mas e a liberdade de expressão?".

Ele trata todos igualmente, ou assim gosta de pensar. Davizinho não é racista - ora, ele sequer acredita que isso exista! Não, o problema, diz ele, é que os negros se vitimizam demais e o branco é oprimido nisso. "Racista, eu? Ora, mas minha emprega é negra!" responde; "A polícia não é racista, tem PMs negros", alega; "Se tantos negros não fossem bandidos, não teria porque barrar eles", defende - sempre tapando os olhos. Ele desviar quando vê o rapaz de pele mais escura vindo a distância não tem nada de racismo, não... é só precaução. "Esse é o tipo do bandido", explica.

Tampouco é homofóbico - só não quer essa "depravidade" perto dele. "Quer ser gay, é escolha sua", diz, "Só faça isso longe da minha vista". Pro Davizinho típico, que totalmente não é homofóbico, vivemos uma ditadura gay. A mera ideia de um beijo gay na TV lhe causa repulsa; legalizar o casamento civil, uma afronta aos direitos individuais - mas como afronta, ele não consegue explicar. E se o filho for gay? "Não tenho que me preocupar com isso, meus filhos serão criados direito". Pois como todos sabem... isso aí de viadagem? É pai relapso.

Davizinho acredita piamente na meritocracia - e por isso, se opõe intensamente à programas sociais. "Depois pobre se enche filho pra ganhar bolsa família e não ter que trabalhar", reclama o Davizinho, tirando informação sabe se lá de onde. Se ele conseguiu chegar onde está, por que esses vagabundos não conseguem? Afinal, ele também é pobre - certo que estudou em colégio particular e já tirou férias na Europa, mas a ajuda dos pais nada teve a ver, não é?

Ao menos ele é bem informado... Quer dizer, ele não lembra quando foi a última vez que leu um jornal - todo mundo sabe que a mídia é governista e mentirosa. Do que importa, ninguém cobre: Ninguém fala da perseguição contra os empresários; dão espaço para "vagabundas", mas não se fala de como o homem é oprimido; cheio de cobertura de protesto, deviam proíbir isso (a cobertura. O protesto, Davizinho já proíbiu na sua cabeça).

Os mensaleiros foram julgados e condenados, mas Davizinho ainda bate nessa tecla. "O maior esquema de corrupção da história", diz - e quando confrontado com esquemas maiores? "Tem muita coisa que não foi descoberta porque a mídia petista acobertou!". Seu envolvimento com as notícias se resume aqueles comentaristas que dizem o que ele quer - tipo aquela moça que falou do carnaval... Ela falou agora dos bárbaros invadindo o espaço de bem né?

Bom mesmo era na ditadura - não que Davizinho admita isso: quer dizer, ele admite que é a favor dos militares. Só não admite que era uma ditadura, porque "ditadura é coisa da esquerda". E de esquerda ele entende: nazismo? esquerda. Ditaduras? Todas de esquerda! Obama? Comunista! Partidos no Brasil? Todos de esquerda. Ele ouviu assim. Aquela verdade que vem da barriga, e não do cérebro - essa é o bastante pro Davizinho

É. Davizinho é um cidadão de bem... Mas ele é bem intencionado, e não é isso que importa? O seu coração está no lugar certo, pensa o Davizinho - ele só quer livrar a sociedade desses parasitas e gerar um espaço onde o cidadão bem seja seguro e protegido contra os "bandidos". E não é isso que importa?

*Qualquer semelhança com Davis reais ou fictícios é mera coincidência.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A politização dos direitos LGBT

O casamento civil igualitário não é uma questão política. Essa afirmação pode parecer ridícula, e até absurda: como assim o casamento civil igualitário não é uma questão politica? Afinal, os movimentos LGBT não estão politizando isso o tempo todo? Eis a questão: primeiro, isto deveria ser meramente uma questão de direitos individuais. Não há absolutamente nada na legalização do casamento LGBT, ou de qualquer outro direito dos LGBTs, que vá afetar de qualquer maneira a vida de quem não quer se casar com alguém do mesmo sexo - a não ser que você se interesse tanto assim pela vida alheia que é incapaz de aceitar que levem um padrão de vida diferente do seu.

É óbvio que não devemos ignorar estas questões - o meu ponto aqui não é este. A questão é que elas não são por definição políticas. O motivo para progressistas, secularistas e LGBTs continuarem politizando essa questão é bem simples: conservadores fizeram dela uma questão política, e enquanto ela for assim tratada, ela tem que ser politizada pelo lado oposto. Se o movimento LGBT retirar essa pauta da política, não há porque esperar que os conservadores façam o mesmo. Au contraire, o que se pode esperar no caso dos progressistas retirarem o assunto de pauta é um fortalecimento do conservadorismo nesta questão. 

os fatos da questão.
Não foram os movimentos LGBT que politizaram a questão - mas sim os conservadores, visando eternamente preservar a sociedade heteronormativa, como se qualquer desvio da "norma" fosse digno de repúdio. "Mas estão nos forçando a aceitar isso como normal", eles dizem - "essa ditadura gay quer converter nossas crianças com o kit gay" gritam os mais afobados - "querem tolher nossa liberdade expressão", alegam quando são criticados; O argumento conspiratorial - de que querem impor a homossexualidade - é cada vez mais usado e abusado, mesmo sendo claramente falso. 

E tudo isso enquanto fazem o possivel para "proibir propaganda gay" (seja lá o que isso for); alegam que homofobia não existe, mesmo perante as evidências gritantes; defendem discurso de ódio como "livre expressão", chamam videos não editados de difamação, enquanto usam de mentiras grotescas para atacar os defensores da causa LGBT. 

É ao tentar regular o que é uma questão individual, entre dois adultos que se amam, que o conservadorismo faz do casamento igualitário uma questão política. Ainda mais quando mantém a pressão para que essa decisão - que diz respeito somente e apenas aos LGBTs - seja feita "por plebiscito". Em "Ideais Politicos", o filósofo Bertrand Russel já notava essa contradição: como pode se deixar na mão da maioria uma decisão que diz respeito apenas às minorias, quando esta decisão não impactar o resto? Não se sentindo excluídos por não poderem casar com quem amam, a maioria dos cidadãos brasileiros simplesmente não tem como julgar essa questão de maneira justa - sim, existem aqueles que tem a empatia e o conhecimento para se colocar no lugar do outro - mas para a grande massa, acaba pesando mais o discurso de que "querem impor" do que a realidade de quem será afetado por isso.

Mas a politização do que não é uma questão política - os direitos humanos básicos dos LGBTs - vão além do óbvio ligado a situação no Brasil. Por exemplo, a situação abismal dos direitos LGBT na Rússia passou de uma questão de direitos humanos e uma questão - esta sim - política, ligada a politização do tema pelos conservadores russos, para um caso de política internacional, chegando a propostas de boicote das olimpíadas de inverno. 

Notem que essa movimentação por parte da direita conservadora religiosa não para meramente em "subtrair o direito ao casamento civil igualitário". Enquanto no caso russo já chegou-se ao extremo da proibição da "propaganda gay" - seja lá o que for isso - e se fala em açoitar homossexuais, no Brasil já se vê legislação proposta  em alguns municípios para tomar a mesma direção autoritária da Rússia, banindo "promoções da homossexualidade", embora sem apoio por ora. 

A principal buzzword da retórica de ódio: "Ditadura Gay"
No entanto, a retórica exagerada e muitas vezes violenta de figuraços conservadores como o pastor Silas Malafaia, a "psicóloga" Marisa Lobo, o deputado Jair Bolsonaro, ou o infame deputado-pastor Marco Feliciano (para não esquecer do ainda mais radical Tupirani da Hora Lores) é uma peça chave para o projeto político por trás dessa conversão do que é um interesse individual e que não afetaria em nada aqueles que não são LGBT, em uma questão política e de moral pública. 

Retórica de medo contra homossexuais e culpabilização
pelo mal da vez  - no caso a Aids.
E nessa retórica de ódio, se convertem outras questões, como a Aids, a pedofilia, a violência doméstica e a criminalidade em "componentes do problema gay" - O que se tem visto na Rússia, como coloca o comediante Stephen Fry, nada mais é que o mesmo que Hitler fez com os judeus: torna-los bodes expiatórios para todas as moléstias do país e depois de alimentar esse ódio, dar aos mais radicais os meios e a legalidade para "se livrar do problema". 


uma das muitas imagens mentirosas.
Para esse fim, se apela para as mais extremas formas de manipulação - como o deputado Jair Bolsonaro editando vídeos para inferir que psicólogos e professores ligados a movimentos LGBT eram pedófilos, que lideranças eram violentas, e que um pastor defensor dos direitos dos homossexuais "visava exterminar todos os cristãos"; o deputado-pastor Marco Feliciano alegando que o projeto que visava legalizar os tratamentos de reversão de sexualidade "não tratavam de cura gay" e que ao deixar explicito que não era permitido "curar gays", o conselho federal de psicologia sim que pretendia curar gays; o mesmo deputado transformando um - admitidamente invasivo- protesto por duas pessoas em "uma agressão executada por um bando de militantes gays, pondo a integridade física dele em risco"; as campanhas difamatórias contra o deputado Jean Wyllys, chamando o de pedófilo, de genocida em potencial, alegando que ele "chamou cristãos de imbecis", etc - todas embasadas em citações inexistentes, entre dezenas de outros exemplos.

Mesmo nos "tão desenvolvidos" EUA (que serve de fonte para muito do discurso conservador no Brasil) ainda temos palavras como as de David Usher, do "Center for Marriage Policy", de que lésbicas querem escravizar homens e enganá-los para terem filhos (o mesmo "pensador" parece achar que homens gays iriam querer transar com lésbicas... porque blá), ou do escritor de ficção científica Orson Scott Card, para quem reconhecer a relação de dois homens ou duas mulheres como um casamento é ditadura. E bizarramente, Card se considera a vítima de preconceito, apesar de ter passado anos e anos atacando os direitos civis de LGBTs, sua identidade, e criando teorias conspiratórias contra os mesmos (e contra negros, mas isso não vêm ao caso).



Enquanto no ocidente muito se trata a questão da homofobia como algo "natural", e se repete o meme ignorante de que homossexualidade é uma escolha - embora estudos de psicologia e genética demonstrem que não é de forma alguma uma escolha - na Tailândia se vê uma situação completamente diferente. Embora o casamento igualitário não seja legal no país, a tolerância por relações homossexuais e por transsexuais é notória, de forma positiva: por questões culturais, os tailandeses tratam homossexualidade ou transsexualidade não como "uma escolha" ou "uma anomalia", mas como parte inerente do indivíduo. Isso deveria jogar por terra o argumento de que "homofobia é natural", tão adorado por certos conservadores. 

Aí está parte do porque de politizarmos o tema dos direitos LGBT: embora por definição não sejam um assunto político, os esforços deliberados por setores conservadores para restringir e constringir os direitos desse segmento da população fazem com que seja necessário manter a defesa destes direitos dentro do discurso e da agenda política. Apesar das alegações frequentes de homofóbicos de que "se quer direitos extras para os gays", o que se tem é um esforço para preservar e garantir direitos, enquanto conservadores e "guardiões da moral" agem de forma a eliminar ou restringir direitos. Por isso devemos manter na pauta política - mesmo sendo uma questão individual, muitas vezes. 




sexta-feira, 21 de junho de 2013

Estamos voltando para 1964?

Uma imagem bela de um movimento nada admirável
Tem muita gente achando lindas as manifestações que rolaram ontem pelo país. Mas tenho que dizer: o que eu vi e o que li nada tinha de belo ou admirável. Já não vi com bons olhos as tentativas de censurar os movimentos sociais na organização pelo Facebook, e menos ainda as pautas erguidas por parte dos manifestantes. A caminho da concentração, me chamou o imenso efetivo policial disponibilizado para o evento.

Isso, e os jovens com mascaras de Guy Fawkes e cidadãos "engajados" que até semana passada desprezavam os movimentos sociais, munidos cartazes de propostas as vezes bem pensadas, as vezes genéricas, as vezes horríveis ("Abaixo a ditadura do Ibama" foi a que me deixou mais estupefato, junto com "Joinville está com você Marcos Feliciano) - mas nenhuma delas local. Queriam que Joinville por si só resolvesse problemas do governo federal. 10 mil cidadãos em marcha - e a maioria parecia não saber o que é atribuição do governo local.

Participei da manifestação aqui em Joinville, junto ao pessoal do Movimento Passe Livre - e de início as coisas estavam boas: muita gente na rua, o MPL com uma pauta bem definida, um protesto tranquilo (talvez até demais)... Apesar da horda de PMs que vi mais cedo, o primeiro sinal da presença policial que vi foi quando passamos em frente ao Bradesco - e nas palavras de uma amiga, eles estavam "de boas".

Mas conforme as coisas avançaram, eu fui lentamente sendo puxado "para trás" da mobilização, onde estava o pessoal não ligado ao MPL. E aí as coisas começaram a me incomodar - eram gritos de Abaixo à Corrupção, cartazes contra a Copa, "Não queremos mais dentistas queimadas", e outras causas que nada tinham a ver com o movimento - alguns casos, eram até contrários às causas do MPL. No lugar das palavras de ordem do MPL, vinha o ufanismo do hino nacional e "Eu sou brasileiro, com muito orgulho". Quando foi que entrei em um movimento nacionalista, não sei dizer - mas era o que me cercava.


Quando chegamos a  altura do Terminal do Centro, havíamos perdido o MPL de vista - e a multidão se espalhou. A travessia do terminal em si foi a parte mais insólita: quando que se permitiu que manifestantes entrassem no terminal? Parte do grupo "tomou" a Prefeitura (simplesmente ficando em frente a mesma) aos gritos de "A prefeitura é nossa", enquanto um punhado deles ainda emendava "Fora Carlito" - o grau de alienação pode chegar a esse nível de não saber quem é o prefeito?


Me ausentei da manifestação brevemente para acompanhar uma amiga de volta ao centro enquanto "ocupavam" a Prefeitura. Quando retornei, vi jovens com máscaras de Guy Fawkes e cidadãos com cara pintada desorientados, ignorando a marcha do MPL, e achando que por terem parado em frente a Prefeitura estava terminada a manifestação. No geral, em Joinville foi tranquilo - mas ainda assim... vazio. E após o fim da passeata (que mais pareceu marcha cívica), vimos os mesmos alienados protestando no Facebook porque o MPL "havia roubado a manifestação". 


Anteriormente haviam tentado expulsar o PSOL e Leonel Camasão da manifestação, acusando os de oportunismo, quando o PSOL, e mais ainda o Leonel sempre estiveram envolvidos com os protestos do MPL. Agora, de maneira muito pouco sútil, tentavam "desconvidar" a Esquerda e o Passe Livre para as próximas manifestações - no caso, um ato contra a PEC 37, neste sábado. Nós podemos ir, é só "não chamar atenção", para colocar nas entrelinhas. 

Agora o resto do país...


Enquanto em Joinville o problema foi a falta de direção dessa massa desgovernada e anti-partidária (mas que se acha apartidária), combinada com uma dose considerável de alienação, no resto do país a situação foi grave - e violenta, apesar dos gritos de "Sem violência". Com 1,2 milhão de pessoas nas ruas, o resultado não foi nada bonito. Começando por São Paulo, onde o MPL desistiu da mobilização frente as pautas conservadoras (como redução da maioridade penal, estatuto do nascituro, "mais segurança"), o que se viu foi um espetáculo de fascismo



Aos gritos, tapas e pedras, os partidos da esquerda (mas só os da esquerda) e os movimentos sociais foram sendo expulsos do movimento. Resta agora só uma onda nacionalista desgovernada "apartidária" mas que assume as pautas da direita. Pedem por mais segurança usando como causa a dentista queimada viva em São Bernardo do Campo - mas não levantam a voz para pedir segurança aos jovens de comunidades carentes que são mortos todos os dias. Gritam pelo Impeachment da Dilma e ao PT, mas nada de berros de fora Alckmin. Se "solidarizaram" com o MPL após a repressão - mas agora são violentos com a esquerda e o próprio MPL, e são amigáveis com a PM.

Militantes e transeuntes foram agredidos pelo simples fato de usarem vermelho, sob os gritos de "o protesto é para todos" e "fora comunista" (chega a ser hilário que não notem a contradição). Aqui em Joinville, a resposta dada a quem criticou a tentativa de proibir a participação de partidos, sindicatos e movimentos sociais foi "A passeata é livre, é de todos, se deixar entrar deixa de ser". Puro duplipensar Orwelliano.

E agora temos essa massa cada vez mais fascista - já se fala em linchar "os comunistas", então temos estabelecido aí o "grande inimigo" - movida a um ódio por um governo que sequer sabem como funciona. Ao invés de levantarem propostas lógicas, pedem por um golpe de estado - e respondem com "não queremos golpe, só que se feche o congresso e coloquem o Barbosa no poder".

Agora Brasília discute que rumo tomar quanto as manifestações, após a depredação do Palácio do Itamaraty (por sinal: sede do ministério de Relações Exteriores, que nada tem a ver com os assuntos internos do país). Os militares repetem as velhas mentiras de que o governo atual planeja um golpe comunista. O caos crescente toma as cidades, e tudo parece apontar para um novo golpe. Meus parabéns, anti-partidários "defensores da liberdade" (contanto que não de esquerda). Vocês estão nos levando de volta a ditadura.

Espero estar errado.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A chantagem de Feliciano

"Se governo interferir na cura gay, haverá rebelião evangélica" - Marco Feliciano

Pois é: enquanto ninguém olhava, o figura ao lado foi e fez o que há muito ameaçava fazer... Colocada na pauta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, sob a presidência do racista e homofóbico pastor Marco Feliciano (PSC), nesta terça-feira, o projeto de lei que autoriza a "cura gay" foi aprovado na surdina - e agora segue para o plenário da Câmara.

Por si só a validação de tal excrecência é estarrecedora: como aceitar que em 2013 a Câmara dos Deputados do segundo maior país das Américas leve em frente a ideia de tratar homossexualidade como doença? E que seus legisladores se achem mais capazes de dizer o que é e o que não é doença do que a Organização Mundial de Saúde e o Conselho Federal de Psicologia? Mas a pior parte não é essa - esta, eu coloquei no começo do texto.


Em um flagrante de descaso com a separação de poderes ou com a democracia, o pastor-deputado apelou para uma coisa simples: a chantagem. Após uma audiência pública a respeito da lei, Feliciano fez a ameaça que abre este post - de uma rebelião por parte dos 80 deputados da bancada evangélica, caso o governo tente impedir de qualquer maneira a aprovação da lei. A tentativa de intimidação se dirigia especificamente a ministra dos direitos humanos, Maria do Rosário - Feliciano recomendou “juízo para a dona ministra” que “mexe onde não devia”.

Enquanto o país passa por um período de instabilidade frente a massa de protestos que correm desde a semana passada, joga essa ameaça mal velada de obstrução do legislativo para garantir que a sua agenda seja cumprida. E com isso propõe desestabilizar ainda mais o país. Não me surpreenderia, frente a cooptação dos protestos pela direita, que a bancada evangélica tente alegar que a pauta dos milhares marchando pelas ruas de todo o país seja "o casamento tradicional" e "a cura gay" - ou que digam que é para barrar a PLC 122.

A torpe ameaça da "revolta evangélica" traz a tona uma velha ameaça à nossa tão combalida democracia: que esta dê lugar à uma ditadura teocrática, frente ao avanço progressivo do conservadorismo evangélico, e a obsessão de segmentos deste credo por controlar as vidas alheias. 

E vale lembrar que homossexualidade não é doença - a OMS não reconhece mais a orientação sexual como patologia desde 1990. Como então pretendem os nossos paleo-conservadores "cura-lá"? Sua base dentro da psicologia se resumem à curitibana Marisa Lobo - que sequer possuí um curriculum Lattes, à data do fechamento deste texto - e o pastor Silas Malafaia - também sem Lattes. 

Enquanto isso,  estudo após estudo demonstra como as terapias de "reorientação sexual" não surtem efeito. Movido à dogmas e ignorância, o congresso nacional tenta legalizar um tratamento sem sentido, que é incapaz de surtir efeito, e para isso tenta atropelar sua autoridade para derrubar uma determinação do Conselho Federal de Psicologia.  

E só para fechar... as sandices de Feliciano agora viraram notícia internacional - sem dúvida graças ao interesse global no país após a onda de protestos combinada com a Copa das Confederações. Meus parabéns, você nos pôs no site da Salon.

O protesto coxinhizado

Após as boas novas da intensa movimentação desta segunda feira - que já discorri a respeito aqui - agora vêm as más notícias da mobilização de mais de 250 mil pessoas por todo o país. Não falo do vandalismo, dos saques realizados aproveitando o caos, ou sequer do retorno da repressão policial - esses fatores, por mais lamentáveis que sejam, são de se esperar ante a revolta. Não, o problema fica mais embaixo: a cooptação de um movimento popular tradicionalmente ligado às esquerdas por parte da burguesia e da direita reacionária.

Embora o fluxo de pessoal novo como resposta a horror da repressão tenha dado força ao levante popular, ele também fez com que o movimento se metamorfoseasse de forma singular. Sem alarde, a pauta original - a revolta contra os aumentos abusivos das passagens no transporte coletivo, o descaso com a mobilidade urbana, a relação promíscua do poder público com as empresas privadas, e a resposta à dura repressão - deu lugar a gritos que muitas vezes eram diretamente contra sua raiz. A direitização do movimento dá as caras em pedidos que vão desde o genérico "contra a corrupção" (como se alguém se posicionasse a favor) até absurdos como o impeachment de Dilma Rousseff ou (pasmem) a volta dos militares ao poder.
A tentativa de redirecionar o foco...

"É evidente que essas questões também são importantes, mas os jovens que estão nas ruas estão preocupados com questões muito mais profundas. A juventude está mostrando que não quer compartilhar dos valores individualistas, consumistas e utilitaristas da geração de seus pais. 
O grito dos jovens está longe de bradar contra os “mensaleiros”, contra a inflação, contra as políticas sociais de transferência de renda. O movimento é progressista por natureza e agora tem de saber lidar com uma ameaça feroz: a direitização. 
O aparelho midiático que serve a esses interesses já foi acionado. A grande imprensa já está mobilizada para maquiar o movimento de acordo com um ideário conservador, por isso o povo precisa fazer seu recado ser entendido."

...Desvia o interesse para a direita..
Não que o rapto do movimento pelos setores conservadores da sociedade não tenha começado antes: começou na semana passada, quando percebeu-se que a repressão não silenciaria o levante, e na onda mor dos protestos, nesta segunda-feira, criou-se o mito de que "o gigante havia acordado". Como se os movimentos sociais tivessem surgido no dia 17 de junho de 2013. Não, o Brasil não "acordou". Ele "ergueu-se" pelo volume das manifestações, mas sempre esteve acordado. E talvez fosse melhor que permanecesse abaixado, sem que se tentasse roubar seu foco.

.... para pedir privatização de bens públicos...
Enquanto burgueses apáticos que nada faziam para protestar fingiam que o "Cansei" contava como protesto, LGBTs, negros, estudantes, maconheiros, feministas, favelados e outros "subversivos" mantinham-se na luta constante, enquanto o país olhava para o outro lado. Agora que não é mais possível desviar o olhar, a mesma direita que semana passava defendia a repressão alega que o movimento é deles, o inimigo é o PT e a esquerda, e que a pauta "real" é a punição dos acusados do mensalão, o fim das cotas raciais e das bolsas qualquer coisa, a redução dos impostos, e tudo menos a mobilidade urbana.

... a volta da ditadura...
A sana dos direitistas que agora tentam roubar um movimento que é acima de tudo sobre a mobilidade urbana, e fazer dele um processo de impeachment contra Dilma Rousseff não é exatamente difícil de entender. Vivemos uma democracia jovem e mal compreendida, não temos experiência em regimes democráticos: a maior parte de nossa história foi uma sequência de ditaduras e curtos períodos onde a população era "meio-que-ouvida". Não é de se surpreender portanto que muitos pensem no chefe do executivo como uma espécie de semi-deus do governo Brasileiro, responsável direto por tudo e todos.

E justamente daí vem a obsessão com culpar o governo do PT (que não é isento de culpa - na melhor das hipóteses, os sacrifícios da governabilidade aleijaram o governo. Na pior, é incompetente e corrupto): da falta de compreensão da democracia. Culpam Dilma por decisões do legislativo (como a de por o PMDBista Renan Calheiros na presidência do Senado); por medidas constitucionais (como o mesmo Renan Calheiros assumir a presidência durante a ausência da Presidenta e do vice); por leis de 1991 (como o auxílio reclusão); e até por medidas de um governo estadual do PSDB (como o cartão recomeço, vulgo "bolsa crack").

... e a desregulamentação total de mercado.
No meio de tudo isso, as manifestações populares encontram-se no risco de duas coisas: ou de serem, como bem definiu um amigo meu, coxinhizadas e virarem mais massa do que conteúdo - algo que talvez já tenha ocorrido nesta segunda; ou pior, lentamente serem transformadas em um repeteco da Marcha com Deus por Tradição, Família e Propriedade, conforme os reacionários suplantem a raiz do movimento - e já há tentativas de "gentilmente" expulsar o Passe Livre das passeatas. E pior: houve manifestantes tentando passar de "defender o transporte público" para "pela privatização total do transporte coletivo".



Reaça, vaza dessa marcha...

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Quando medidas bem intencionadas são causa de conflito...

Algumas vezes, problemas de atitude de uns poucos destroem bons planos. Outras vezes, a sensação de certas pessoas - em geral privilegiadas - de serem "prejudicadas" por um determinado programa ou campanha resultam em discursos exagerados e temerosos a respeito dos "parasitas sociais", dos "vagabundos" e de como "as pessoas de bem" estão sendo prejudicadas por isso.

Esse tipo de reação venal é bem comum quanto a programas de inclusão social, em especial aqui no Brasil e nos EUA - quem nunca ouviu a estapafúrdia teoria de que "pobres teriam mais filhos para ganhar mais bolsa família", aparentada com o igualmente incompreensível alegação comum nos EUA de que famílias de baixa renda "inventariam doenças" para ganhar mais benefícios e não ter que trabalhar. Como se R$ 32 a mais por mês em uma família cuja renda já é insuficiente de alguma maneira compensaria o peso adicional de mais uma boca para alimentar.