sexta-feira, 1 de maio de 2015

As muitas mortes de Al Baghdadi.

Al Baghdadi foi dado como criticamente ferido pela terceira
vez. A pergunta é: Importa? Foto de divulgação.

A campanha contra os extremistas do Estado Islâmico parece ter tido um sucesso: segundo o The Guardian, o líder e auto-proclamado Califa do grupo terrorista, Abu Bakr al-Baghdadi, foi gravemente ferido em um ataque aéreo no final de março. Seriam ótimas notícias para a campanha contra o EI... não fosse pelo fato da notícia levantar dúvidas: em novembro passado, al-Baghdadi também havia “sido ferido gravemente em um ataque aéreo”, notícia que se revelou falsa. E o mesmo ocorrera em julho do ano passado.

A incerteza dessas informações é sinal da precariedade tanto da inteligência aliada na região, quanto da cobertura jornalística. O estado de caos na Síria e no Iraque é tamanho que coletar informações confiáveis se torna cada vez mais difícil, dependendo de fontes anônimas e “citizen journalists” que nem sempre tem compromisso com a verdade. E nesse caos, informações se perdem, se inventam e o que é noticiado nem sempre condiz com a realidade.

Há um perigo muito grande em se contar com a vitória nesse momento. Se o estado de al-Baghdadi for uma mentira isso é mais munição para os extremistas, que poderão novamente dizer que “o ocidente” mente para os árabes. E se for verdade? A morte de al-Baghdadi pode não ser uma vitória: vivo, o auto-proclamado califa é um líder. Morto, é um mártir com uma influência ainda maior e um vácuo de poder a ser preenchido.

Sim, a possível morte de al-Baghdadi pode esfacelar o Isis, caso seus asseclas virem uns contra os outros buscando tomar o poder para si. Isso pode ser bom para o ocidente (afinal, a ameaça do EI se fragmenta), mas não é nada bom para o Oriente Médio. Uma disputa pelo poder nesse momento significaria uma guerra civil ainda mais violenta no Iraque e na Síria, que já sofrem com o caos generalizado.

Ao mesmo tempo, a morte de al-Baghdadi pode aumentar a sua influência a níveis sem precedentes. Como muitos movimentos extremistas de fundação abraâmica, o EI tem uma obsessão com o conceito de martírio, e não poderia haver mártir melhor que um “homem santo assassinado covardemente pelos infiéis, que visavam silenciar sua palavra”.

A situação do Estado Islâmico é um legítimo Ardil 22, como no clássico romance de Joseph Heller: a permanência de al-Baghdadi no poder é uma ameaça, pois é aquilo que sustenta o EI; a solução para esse problema seria retirá-lo do poder. No entanto, matar ou fazer uma “rendição extraordinária” faria dele um mártir, o que aumentaria o poder e a influência do EI. Resolver a situação de forma pacífica é inviável enquanto o grupo mantiver controle militar da região, e dialogar com a população é impossível sem retirá-los de lá. Bombardeá-los até a submissão é impossível, dado que seus mortos se tornam motivação para novos militantes e as tentativas de fulminá-los causam mais baixas civis do que de extremistas. As condições do dilema tornam qualquer solução inviável.

E ao contrário do cenário proposto pelo filme “Jogos de Guerra”, de 1983, este é um jogo em que não existe a opção de não jogar. É fácil pensar em um conflito armado como uma partida de Xadrez: elimina-se o rei, e o jogo está ganho. Bem, este rei foi aparentemente eliminado três vezes. E o jogo continua. Al-Baghdadi, o homem, não é importante, como notou o professor de história da California State University, Ibrahim Al-Marashi. Seu carisma formou o ISIS, e o impeliu a se tornar o Estado Islâmico.

Quando a atual “guerra ao terror” se iniciou, o grande inimigo era a Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. No fracasso da Al Qaeda, o EI cumpriu aquilo que Osama prometera: um califado islâmico no século XXI. Seus seguidores não se sustentam mais na nostalgia do califado Abássida, uma memória idealizada de sete séculos atrás, mas em preservar o seu califado. O seu “estado ideal”. E isso é muito mais difícil de sufocar do que as palavras de um homem só. Se al-Baghdadid morrer, vira mártir e herói. Se viver, continua como líder. De qualquer maneira, todos perdem, menos os extremistas.

Há de haver uma solução. Esperemos que a comunidade internacional saiba como encontrá-la. Ao final da segunda guerra mundial, a solução para evitar a retomada do Nazismo e do Imperialismo Japonês foi a reconstrução dos dois países, com fortes políticas para combater o extremismo. Mas antes que essas medidas fossem implementadas, foi necessária uma grande perda de vidas para derrotar às maquinas de guerra da Alemanha e do Japão.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O massacre da educação


Fonte: APP-Sindicato dos Trabalhadores em
Educação Publica do Paraná
Balas de borracha. Gás lacrimogênio. Sprays de pimenta. Blindados. Cães treinados. Atiradores de elite e sangue derramado. Os alvos desses instrumentos de repressão? Os professores do Estado do Paraná. Enquanto estes lutavam para preservar seus direitos previdênciários, o governador Beto Richa (PSDB) os tratou da mesma maneira que ditadores do oriente médio: na base de tiro, porrada e bomba.

A grande mídia chamou o absurdo de “confronto”. Tal denominação se aplicaria se houvessem algum princípio de igualdade de forças em jogo. No entanto, o que se viu foi uma disparidade sem igual: de um lado, policiais equipados com todo o aparato de repressão que o estado pode custear. Do outro, professores que, se tanto, tinham paus e pedras. É o equivalente a dizer que Tian An Mén*, Ferguson* ou Kobane* foram “confrontos”. O grau de violência pode não ser o mesmo, mas a disparidade de forças é igualmente evidente. Chamemos como é: um massacre.

Se há algo de “notável” na truculência de Beto Richa é quanto da máquina estatal foi movida para isso. Veículos do BPFron (Batalhão de Fronteiras) da Polícia Militar do Paraná foram convocados para auxiliar na repressão aos manifestantes, enquanto a Assembléia Legislativa votava a manobra fiscal que alterava a forma de pagamento das aposentadorias. O batalhão normalmente opera à cerca de 600 km da capital, na triplíce fronteira.

Segundo Luís Domingos Costa, professor de Ciências Políticas da Uninter, entrevistado pela Gazeta do Povo, este foi o pior episódio de repressão já vivido no estado do Paraná. O único episódio comparável ocorreu em 1988, sob o governo do hoje senador Alvaro Dias (PSDB), quando uma greve de professores foi recebida com a cavalaria da polícia militar e bombas de efeito moral. No entanto, enquanto o episódio desta semana deixou mais de 200 feridos e dez presos, em 88 foram “apenas” dez feridos e cinco presos.

De imediato, Richa defletiu sua responsabilidade: a culpa, diz o governador, é do PT, do PSTU, do PSOL, da CUT... em outras palavras, “é a ameaça vermelha”. São os movimentos trabalhistas e a esquerda “implantando o caos no país”. Chegaria a ser ridículo, não houvessem tantos dispostos a apoiar esse discurso saído diretamente dos anos 50.

Não há muito que possa ser dito em defesa de um governo que se julga correto em agredir professores. A posição do governo do Estado do Paraná é clara: “abaixem suas cabeças”. O mesmo ironicamente se aplica aqueles que serviram como cães de guarda do governador nessa tragédia anunciada. Em 2012, o tucano declarou que era “bom” que os PMs do estado não precisassem de diploma, pois “pessoas com formação superior são insubordinadas”. Richa não se interessa por autonomia. Ele quer peões dispostos a fazer o seu trabalho sujo, coisa que se vê claramente na prisão de 17 policiais e a sua possível exoneração por se negarem a reprimir os protestos de professores.

 

*O massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, quando o Exército de Libertação Popular da China reprimiu com toda a força militar do partido o protesto de estudantes e intelectuais pedindo por abertura política. A repressão deixou centenas de mortos e entre sete e dez mil feridos.

*Ferguson, Missouri: os protestos em resposta  a morte de Michael Brown, baleado seis vezes por um policial, resultaram em equipamento militar sendo usado para reprimir protestos, deixando 200 presos e 11 feridos. Para defender a operação, a policia local alegou que os manifestantes queriam “policiais mortos”.

*Kobane: Protestos pela independência kurda após o fim do cerco a cidade de Kobane no norte da Siria foram repreendidos com violência pelas forças de ocupação turcas, em 2014. Ao fim dos protestos, a polícia e o exército turco deixaram 12 mortos. Protestos subsequentes pela Turquia resultaram em mais 31 mortes.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Morre Campos; Perde a democracia

Perdemos um grande homem - de maneira súbita e inesperada, o candidato do PSB para a presidência da República, Eduardo Campos, faleceu em um chocante acidente aéreo, em Santos. Uma perda para todo o país - quer fosse a intenção de voto nele ou não. Um político experiente, de coragem e inteligência, um homem integro, e que muito fez pelo país quando Ministro da Ciência e Tecnologia - e com essa morte, a democracia brasileira muito perde. Perde nas posições do debate, que se limitam e se restringem. E perde especialmente com as discussões e acusações pobres que se alastram nas redes sociais, nos bares e locais de trabalho, lares e faculdades.

Não demorou muito: tão logo a queda da aeronave que transportava o candidato fora noticiada, esquerda e direita trocavam acusações infundadas de que Dilma, Lula, ou Aécio teriam causado o acidente; acusações que não agregam nada ao debate, mas que servem muito bem para "justificar" agressões e insultos por ambos os lados. Não é hora para especulações; o momento é de luto e de calma. Não podemos permitir que essa perde venha a danificar - ainda mais - a nossa já combalida democracia, tão frágil e tão jovem.

Perderam-se também outras seis vidas. Um total de sete seres humanos mortos, desrespeitados por aqueles que fazem uso politiqueiro da tragédia. Enquanto partidários do PT e do PSDB lançam acusações sem provas, os candidatos dos dois partidos manifestaram seu pesar sobre a morte do candidato - como deveria ser feito. Suspenderam também as agendas de campanha. O mesmo foi feito por Eduardo Jorge, do PV, que lamentou a perda de uma liderança jovem - apenas 49 anos.

Eduardo Campos tinha uma coragem rara na política brasileira: se dispunha a defender posições "controversas", sem temer perder uma parcela do eleitorado. Coisa que já fazia quando ministro - quando defendeu, com sucesso, a pesquisa com células tronco. Agora a campanha passa provavelmente para a vice, Marina Silva - que periga pender em direção aos interesses do eleitorado mais conservador em várias questões sociais. Outra perda para o país, vendo os pactos de governabilidade da atual gestão e do PSDB.

Agora deve ser apurado as causas do acidente fatal - preferencialmente, de forma honesta, sem espaço para politicagens e sem ficar procurando "um culpado" em algo que ao que tudo indica fora uma fatalidade. Não é hora para alegações de sabotagem. Menos ainda para expressar o que há de mais baixo na natureza humana, desejando que outros candidatos passem pelo o mesmo, lamentando que o avião não caiu em Brasília, ou outras expressões de ódio - a hora é de respeito e luto, não de raiva e rancor. Menos ainda de ameaças e insultos, piadas de mal gosto e teorias conspiratórias contra quem quer que seja.

Embora eu não tivesse nenhuma intenção de votar no candidato, pesa-me profundamente a prematura e trágica morte de Eduardo Campos. Com seu súbito falecimento, perdemos todos: a democracia brasileira perde um candidato, o debate se empobrece em meio a especulações e acusações infundadas, e o país perde um grande homem. Por mais que não fosse meu candidato, tenho um profundo respeito por seus feitos quando ministro da Ciência e Tecnologia. Aos colegas e amigos que sejam simpatizantes ou filiados ao PSB, aos familiares e amigos do candidato, e a todos, minhas condolências.

Não nutro nenhuma simpatia por Aécio Neves, e tenho cada vez menos simpatia por Dilma Rousseff - no entanto, mesmo que o avião fosse o de Aécio, ainda lamentaria a perda para a nação - o mínimo a ser feito como ser humano e como defensor da democracia. Desejar a violência contra a oposição não beneficia ninguém, salvo aqueles que buscam o autoritarismo. Estamos de Luto.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Isso é justiça?

Fazer "justiça com as próprias mãos" está virando uma coisa comum, ou ao menos assim parece: neste fim de semana, pela 21ª vez no ano, uma pessoa foi morta como resultado de justiçamentos. Praticamente um linchamento fatal por semana, um total de 188 justiçamentos desde fevereiro - mais de um por dia. Em Guarujá, a dona de casa Fabiane Mara de Jesus, acusada de sequestrar e matar crianças para rituais de magia negra¹. Ontem, pouco após a meia-noite, outro homem faleceu em Juazeiro do Norte. Como ocorreu com Alailton Ferreira, Marcelo Pereira da Silva, e Adilson Feliciana, não há sequer prova de que os crimes do qual foram acusados ocorreram. Mas isso não impediu que fossem mortos. Ou que suas mortes, em sua maioria, fossem ignoradas pela justiça

Também se tornando lugar comum está a defesa dessa barbárie. Entre os comentários padrão temos os costumeiros berros online de "bandido bom é bandido morto", "tem mais é que matar mesmo", "queria ver na mão do povo" e outros gritos enfurecidos em reação a qualquer crime; O velho e batido "ninguém apanha por nada" (mesmo provado que a vítima não fez nada; é o conhecido de radialistas "mas alguma coisa ele fez"); "ah, agora é inocente, queria ver se estuprasse tua filha" (quando o agredido foi acusado de... pequenos furtos - a escalação do crime como defesa da violência); e outras coisas mais grotescas - sempre jogando a culpa na vítima, querendo investigar "o que ela fez de errado" (e não "porque ela foi atacada"), e na falta de provas concluindo "deve ter escondido bem". 

A cena infame, que trouxe o horror a tona:
mesmo o rapaz, nu e ferido, sendo infrator, isso é justo?
Não bastasse isso, em tempos recentes tem se "formadores de opinião" e páginas "jornalisticas" estimulando a violência. Algumas, ao mesmo tempo que criticam a ação dos "justiceiros", agem como se o problema fosse só o fato de algumas vítimas serem inocentes; outras, mesmo sabendo que sequer houve crime, ainda tentam especular que a vítima talvez não fosse inocente (ou que é culpada por ter os amigos errados). Como se a barbárie pode se tornar justa por ter uma desculpa, ou se direitos básicos fossem por água abaixo por se ter culpa. 



Mas nunca assumindo o que claramente fazem: Rachel Sheherazade não "defendeu o linchamento" só disse que era "compreensível" o que chamou de legítima defesa da sociedade. Datena, Prates e tantos outros, ao dizer que bandido bom é bandido morto, que tem que encher de porrada, e etc, não estão defendendo a violência: "eles nunca disseram que era pra bater em ninguém!" dizem os fãs. A página do facebook, que divulgou os boatos (algo que jornalismo compromissado com a verdade não faz) e o retrato falado que culminaram na morte de Fabiane "nunca acusou ninguém, sempre disse que eram boatos" (como se boatos não espalhassem o medo e ódio - afinal o velho libelo de sangue nunca envolveu afirmar que judeus sequestravam crianças - só "disseram me que...")

Não, sem exceção lavam as mãos - imundas com o sangue de inocentes e culpados, igualmente privados de um julgamento justo, igualmente executados pelas mesmas pessoas que lhe serviram de juri, promotor e juiz. Ignora-se a responsabilidade da imprensa na esfera pública. Ignora-se o impacto que acusações levianas e impensadas podem ter na vida de alguém - lição que deveria ter sido aprendida com a Escola Base, vinte anos atrás. Quantas vidas mais devem ser arruinadas - ou perdidas - até que se aprenda a não fazer o que essa página irresponsável recentemente fez? Quanto a se a irresponsabilidade de divulgar boatos e retratos falados como fatos foi criminosa, deixo à justiça para decidir.

Ao invés disso, temos a defesa do fofoqueiro da escola, depois da briga que ele começou: "não afirmei que ciclano falou mal de beltrano, só que me contaram que". Ao invés de admitirem que seu discurso teve impacto na violência, reproduzem ainda mais esse discurso, ao dizer ora que é "compreensível", ou que o vigilantismo é culpa do estado, ora ao dizer que o problema são esses "animais/bandidos/psicopatas" travestidos de cidadão de bem. Enquanto isso, um rapaz em Gastão Vidigal morreu espancado porque uma turba o confundiu com um pedófilo


Ignora-se até a responsabilidade dos agressores: a culpa é do governo federal que é omisso (embora a segurança pública seja responsabilidade dos estados e municípios); a culpa é do caos gerado pelo PT (embora a violência urbana seja um problema de longa data, que muito antecede o governo - pífio - do PT, e tem raízes muito mais profundas do que políticas sociais); a culpa é do crime, que deixou o povo sem escolha; a culpa é do bandido (executado sem provas). E é neste último que sempre recaí a culpa: na vítima de violência "justiceira" - seja essa por parte da polícia agindo a revelia da lei (como em esquadrões da morte) ou por parte de turbas populares de cidadãos "de bem".

Suspeito no Piauí foi amarrado sobre formigueiro, como
forma de tortura.
Uma coisa que me aturdiu, e muito, foram as defesas ao justiçamento com "ninguém falou em espancar gente inocente, mas com quem é culpado é compreensível". Essa defesa (parafraseada), tão assustadoramente comum, sofre de dois problemas... o primeiro é achar que acusações bastam para saber se alguém é ou não culpado (e aí vem a obsessão em encontrar - ou fabricar - algum crime pro morto). O outro, mais grave, é achar que violência contra um criminoso deixa de ser crime - ou que autoriza a superar o crime dele, como os cidadãos de "bem" que amputaram as mãos de um rapaz acusado de furtos em Joinville.  

Mas para alguns, como dá para notar, a aura de paranoia do vigilantismo vale a falsa sensação de segurança. Cito aqui o reverendo Al Sharpton: É um peso inigualável, e difícil de se articular, nascer um suspeito e ter que operar e se comportar de maneira  a não provocar ou exacerbar a paranoia de alguém. É isso que desejamos para a sociedade? Para não ter medo do crime, viver com medo de ser confundido com um bandido e espancado ou linchado? Engraçado como essa "justiça" é a mesma aplicada em comunidades tomadas pelo crime e estados onde a justiça tribal substituí o estado de direito. Trocaremos então um grupo de bandidos por outro? Esquecemos o princípio fundamental de que se é inocente até que se prove o contrário, para trocar por "culpado à partir da primeira acusação"?

E só mais uma coisa, que diz muito sobre quem é, e quem não é linchado: 

Ah, e a falecida Fabiane Mara de Jesus deixa duas filhas, uma de treze e uma de um ano. Meus pêsames às meninas, e ao marido, que está processando a página responsável pela boataria. Uma tragédia começada pela "boa" e velha fofoca. 

¹ alguns vão lembrar que isso soa muito como o medieval libelo de sangue contra os judeus - macabramente apropriado visto a medievalidade do pensamento dos justiceiros. 


terça-feira, 15 de abril de 2014

Tolerância religiosa II: o centro comunitário judeu

Fonte: WCBV
Neste domingo, outro caso de intolerância religiosa veio a tona: um homem com um histórico de retórica intolerante invadiu um centro comunitário judaico no Kansas, matando três pessoas: um garoto de 14 anos, Reat Griffin Underwood, seu avô, Wiiliam Lewis Corporon, um dentista de 69, e uma mulher de 53,Terri LaMano, que estava visitando a mãe. Nenhum dos mortos era judeu. Outras duas pessoas estiveram na mira do perpetrador, mas não foram alvejadas. Até onde se sabe, nenhuma das vítimas era conhecida do terrorista atirador. 


Embora o ataque tenha sido indiscriminado, mirado em um centro comunitário e cercado por discursos de ódio, o termo "terrorista" não foi utilizado pela imprensa; detido como principal suspeito do ataque, Frazer Glenn Cross - vulgo Frazer Glenn Mueller - foi líder e fundador de uma célula da Ku Klux Klan, e do Partido Patriota Branco. Cross já havia sido preso anteriormente por planejar o assassinato de um dos fundadores do Southern Povery Lawcenter e tinha um histórico de discursos anti-semitas, segundo o FBI. Quando detido pela polícia, bradava palavras de ódio e encerrou com "heil hitler". Apesar da intenção clara e indiscriminada de intimidar a comunidade judaica, Cross não está sendo tratado como terrorista, mas o caso está sendo tratado como um crime de ódio - ao menos isso. 

Frazer Glenn Cross gritou "Heil Hitler" ao ser preso. Fonte: Kctv
Segundo a Anti Defamation League. Ataques contra centros comunitários judaicos, assim como contra sinagogas, são comuns nessa época do ano - graças a combinação da páscoa e do aniversário de Adolph Hitler (no dia 20 de abril), usados como desculpas por fanáticos religiosos (que culpam os judeus pela morte de cristo) e neonazistas (celebrando o aniversário do Führer). A entidade foi uma das poucas a chamar a tragédia de ataque terrorista. Se o ataque de Cross tem a ver com alguma das datas, não se sabe. Coisa parecida acontece em setembro, quanto "patriotas" usam o aniversário do atentado de 11/9 como desculpa para intimidar muçulmanos. 

Munido de uma escopeta, Cross abriu fogo contra o carro de Corporon e Underwood, matando os dois. Avô e neto estavam no centro para um concurso de canto mantido pelo município, e que poderia render ao rapaz uma bolsa de estudos. Depois, enquanto o centro trancou as portas como medida de segurança, Cross se dirigiu para Villa Shalom, uma casa de repouso que fazia parte do complexo. Lá, matou LaManno. A arma foi obtida através de um laranja; em virtude de condenações anteriores, Cross não tinha acesso legal a armas.

No ano passado, um rapaz de 21 anos abriu fogo contra uma sinagoga em Utah. Em outubro de 2012, sinagogas em duas cidades francesas foram alvo de ataques; Em junho de 2009, um homem de 88 anos matou um segurança no Museu Nacional do Holocausto, em Washington; em 2006, um homem baleou seis mulheres, matando uma, na sede da Federação Judaica de Seattle; casos similares se acumulam ao  longo dos anos. Há de se ressaltar, no entanto, que esses crimes de ódio não se restringem a comunidade judaica: em maio do ano passado, um terrorista atirador invadiu um templo Sikh no Wisconsin, matando sete pessoas - desde 2001, a comunidade sikh foi alvo de mais de 300 ataques. No mesmo ano, uma mesquita foi incendiada por duas vezes no Missouri, e em março deste ano, tiros foram disparados contra uma mesquita em Illinois, durante o horário de culto. No Reino Unido, ano passado dois soldados lançaram explosivos contra uma mesquita em Grimsby - a dupla foi condenada a seis naos de prisão.

Templo Sikh foi avo de ataque em 2013. Fonte: getty Images
Enquanto alguns insistem em negar que intolerância exista, ou que é uma "coisa do passado", esses casos estão aí para mostrar que, infelizmente, o ódio está bem vivo. Junte isso à maneira irregular como ataques são relatados. Enquanto ataques perpetrados por muçulmanos são relatados como "terrorismo", supremacistas raciais, fanáticos cristãos e "patriotas" são referidos apenas como "atiradores"; mesmo o ataque com bombas em Grimsby, ou o massacre de Utoya, na Noruega, foram raras vezes referidos como "atentados terroristas". 

O que levanta a pergunta do que ocorreria caso o ataque tivesse realizado por um muçulmano, ou caso as vítimas fossem islâmicas - ou se o alvo fosse uma sede da YMCA, um igreja, ou um centro cristão. Como seria o noticiário e o debate a respeito? Sendo o alvo judeu, apesar das vítimas não serem, já se vê lamentavelmente uma grande dose de discursos relativizando o ataque, dizendo que é "ditadura do politicamente correto", que não foi ódio, e etc. Quando o templo Sikh foi atacado, abundaram comentários dizendo que "eles mereciam", ignorando não apenas que uma minoria dentre os islâmicos apoia terroristas (enquanto uma parte considerável dos americanos apoia o terrorismo de estado manifesto na forma de signature strikes, double tapping e outras estratégias de "guerra preventiva), mas também que os Sikhs não são islâmicos

Me pergunto se não estamos indo na mesma direção que os EUA na expressão do ódio e da discriminação - Já temos casos numerosos de violência contra religiões afro, alguns deles com ajuda em peso de agentes corruptos do Estado. Temos também uma cultura de violência contra "indesejáveis", e uso de concessões públicas para pregar ódio contra minorias religiosas, sexuais e raciais. Nas áreas mais isoladas do país, já tivemos incêndios contra templos indígenas. O que difere é que nos EUA e na Europa, a violência religiosa - perpetrada com frequência por grupos cristãos ultra conservadores, contra judeus e islâmicos - ocorre no centro de grandes cidades, de forma ainda mais agressiva. E é isso que dá mais medo. 



Isso, e a possibilidade que já ocorra, mas os jornais e as autoridades ignorem ou sejam coniventes com a agressão.

Tolerância religiosa I: o centro comunitário islâmico.

Espaço comunitário está para ser demolido. 
Park 51, o infame centro comunitário islâmico em Nova York erroneamente conhecido como a "Mesquita do Ground Zero" - abrigado em um prédio comercial à dois quarteirões de distância do antigo World Trade Center - está para ser demolido: na semana passada, o departamento de edificações da Prefeitura de Nova York confirmou estar avaliando uma aplicação para a demolição do edifício de quatro andares, junto com um prédio adjacente, para a construção de um edifício maior no local, segundo a Agência Reuters.

A demolição pode ser uma preparação para a construção definitiva do centro comunitário; em 2011, Sharif El-Gamal, da Soho Properties, havia expressado planos para inaugurar um complexo de 13 andares, com espaços para oração, recreação e oficinas inter-religiosas. No entanto, um porta voz da companhia não confirmou à agência se a demolição era um passo para o projeto maior. 

O projeto, orçado em US$ 100 milhões, assim como a mera existência do centro comunitário, fora recebido com protestos e alegações de que construir "uma mesquita em cima do World Trade Center" seria "um desrespeito às vítimas de 11/9". Correram também acusações de que o espaço seria na verdade "um centro de recrutamento para terroristas", uma "Mecca para o fundamentalismo" (ao invés da Mecca de fato) e "equivalente a um monumento a Hitler em Auschwitz". 

À época, em 2010, a polêmica levou a um retrocesso nas relações inter-religiosas nos EUA: pesquisas revelaram que para 14% dos americanos - um em cada sete - mantinham a opinião de que mesquitas deveriam ser proibidas no país, enquanto 34% - um terço - achavam que havia lugares que deveriam ser abertos para todas as religiões, exceto a islâmica. Para o ex-congressista republicano Newt Gingrich, a questão não tratava de "liberdades religiosas", pois o Islã não era "uma religião, e sim 'uma ideologia assassina'". 

No entanto, a demolição dos edifícios pode ser o fim do centro comunitário: segundo o Daily Beast, o projeto de expansão não é a realização da Cordoba House (o projeto para o centro comunitário), mas sim para projetos comerciais - a falta de apoio da comunidade e o desvio de dinheiro de um dos principais apoiadores financeiros da proposta parecem ter soterrado o "sonho". O destino do centro após a demolição é uma incógnita. 

As reações violentas à época da fundação do Centro e a indiferença agora são indícios que os EUA estão começando a superar o ódio que veio a tona após os ataques de 11/9 de 2001. No entanto, essa superação ainda é lenta, e fanáticos parecem empenhados em aumentar a intolerância: em 2012, republicanos levantaram teorias conspiratórias contra a assessora de Hillary Clinton, Huma Abedin; Em julho do ano passado, a Fox News realizou uma entrevista vergonhosa com o historiador Reza Aslan e em março desse ano, o congressista republicano Louie Gohmert alegou que a casa branca estaria "tomada pela irmandade muçulmana", e comentaristas da Fox News perguntaram se "alguém se deu o trabalho de pesquisar se aviam muçulmanos no avião da Malaysia Airlines". Esses casos são grãos de areia em um oceano de ódio. Até hoje - e não só nos EUA - para muitos "terrorista" e "muçulmano" são sinônimos, o termo terrorista raramente é usado para se referir a agressores não islâmicos. 

No geral, a situação é lastimável - como proposto, o espaço serviria como um instrumento importante para combater a intolerância religiosa, e moldar um futuro mais tolerante. No entanto, serviu de raiz para ódio e fanatismo - e não por parte dos islâmicos.  



terça-feira, 8 de abril de 2014

Ucrânia: As chamas da guerra voltam a arder

Manifestantes pró-Rússia tomaram prédios públicos.
Depois da anexação "via referendo" da Crimeia pelos russos (em um referendo onde as escolhas eram "ser anexado à Rússia" e "se separar da Ucrânia"), outra região ucraniana agora se encontra imersa na violência separatista: o sudeste do país agora se encontra tomado por protestos buscando também uma anexação à Rússia, e pedindo para que o país vizinho mande tropas para intervir. 

Nesta terça-feira, depois de ter prédios públicos tomados por manifestantes clamando pela invasão russa, o governo de Khiev começou a reagir. Em Donetsk, onde a situação é mais grave, militantes pró-Rússia proclamaram a cidade uma república independente, e o governo interino da Ucrânia está enviando não só forças de segurança, mas também "voluntários" ligados a grupos ultranacionalistas e a extrema direita, assim como mercenários da antiga Blackwater Security. Em Kharkiv, a prisão de cerca de 70 manifestantes pró-Rússia foi considerada pelos russos como "uma agressão"; em uma demonstração rara de contenção, protestos em Mariupol e Luhansk não foram repreendidos.

Essa é uma situação que não tem soluções simples: em meio a violência que ameaça eclodir em uma guerra civil (ou pior, uma guerra total) encontram-se conflitos étnicos, ideológicos, uma ressurgência da extrema direita (na forma de grupos como o Pravy Sector - lit Setor Direito - e o partido nacionalista Svoboda) e uma retomada da retórica de conflito entre EUA e Rússia (ambos interessados no controle da região). Falar em um resultado positivo para o conflito atual é difícil - para não falar em ingênuo.

A situação na Ucrânia é de instabilidade dentro e fora: nesta terça feira, congressistas caíram na porrada depois que membros do partido comunista acusaram os nacionalistas de "fazerem o trabalho para Moscou" com a maneira em que conduziram os protestos no começo do ano; para o deputado comunista Petro Simonenko, os nacionalistas gerarem precedentes para justificar a tomada de prédios públicos pelos separatistas ao terem feito o mesmo para derrubar o presidente Viktor Yanukovych. Em resposta, dois deputados nacionalistas o retiraram da tribuna. 

Na fronteira com a Rússia, a pressão de Moscou é palpável: de um lado, os pedidos por intervenção dos separatistas; do outro, os alertas do ministério de relações exteriores de Moscou, que podem facilmente ser tomados como ameaças. No começo da semana, representantes do governo Russo pediram para que Kiev "cessasse toda e qualquer preparação militar que pudesse levar a uma guerra civil", adicionando que "[Kiev] estaria tentando suprimir através da força os residentes do sudeste do país, que são contra as atuas políticas do governo de Kiev" - a mesma linguagem foi usada para justificar a intervenção na Crimeia. 

Mas como notou o The Guardian, a mesma Rússia que alerta contra "preparações militares" é aquela que mantém milhares de soldados nas fronteiras com a Ucrânia; até o momento, Kiev não fez qualquer ação contra o poderio russo, mas nesta segunda alertou que qualquer nova intrusão russa significaria guerra; Guerra esta com o apoio em peso dos EUA e da Otan, ao que tudo indica.


Também segundo o The Guardian, enquanto os olhos do mundo agora se viram para a Rússia como "causa" do conflito na Ucrânia, para estes, grande parte da responsabilidade recaí sobre a União Européia - responsável pela re-eleição irregular de Yanukovych em 2004 - que não sutilmente tentou "fechar as portas" da Ucrânia para a Rússia; a Otan e a crescente militarização ao redor do país, que para o governo Russo serve como outra justificativa para a militarização; e a "hipocrisia coletiva" do ocidente - o mesmo que apoiou a secessão do Kosovo "pelo direito de autodeterminação dos povos", mas condena a secessão da Crimeia, e o mesmo que realizou repetidas "mudanças de regime" em prol da "democracia" - e estabeleceu precedente para a intervenção russa na Crimeia. 

Enquanto isso, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, alerta para o óbvio: A Rússia estaria tramando uma intervenção "ao estilo da da Crimeia". Segundo Kerry, os eventos recentes tem implicações "perturbadoras"; Em Luhansk, manifestantes estariam colocando minas ao redor dos prédios ocupados, alega o secretário de estado de Barack Obama. Na visão de Washington, é "óbvio" que provocadores russos estão envolvidos em acirrar as tensões no leste do país - em resposta, Moscou levantou as alegações de cerca de 150 operativos da Greystone (a antiga Blackwater) estariam operando na Ucrânia sob o disfarce de "agentes da lei". 

Enquanto a Rússia se prepara para uma "possível-mas-não-premeditada-intervenção", os EUA mantém a ameaça de novas sanções contra o governo russo; Medida que até o momento, pouco parece ter feito em prol do povo ucraniano, que teria ainda mais a perder com a intervenção militar americana. Do outro lado, a companhia de gás Russa Gazpron aumentou os preços do gás para a Ucrânia em 80%, uma medida política para forçar o país a pagar supostas dívidas de US$ 2.2 bilhões, assim como aumentar a instabilidade na região. 

Como está, a Ucrânia se encontra presa no meio do um jogo de poder do qual ela é apenas uma peça; Os interesses ucranianos são secundários em meio ao vai-e-vem de jogadas Russas, Europeias e Americanas envolvendo o já combalido país, para o qual parecem haver poucos prospectos além da guerra. No melhor caso, a Ucrânia irá lentamente se esfacelar frente ao avanço russo, em pequenas guerras civis, rebeliões e "intervenções de paz". No pior cenário, servirá de campo de batalha para algo muito maio que ela mesma - de qualquer maneira, salvo algum evento imprevisto, nada parece indicar um fim satisfatório para essa crise. 

E enquanto alguns apelam para reducionismos tolos, tentando pintar os EUA ou a Rússia como "heróis" contra "o imperialismo", o fato é que o que temos é um duelo de mentalidades imperialistas e autoritárias, do mesmo naipe em que tínhamos na Guerra Fria - com a diferença que agora ambos os lados são capitalistas. 

Esperemos pelo melhor. Caso contrário, não somente a Ucrânia queimará, mas todo o globo.