quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Quando um protesto tenta calar a imprensa

Melissa Click: a professora de mídia que chamou "músculo"
para calar a mídia. 
Nesta segunda-feira, Tim Wolfe, presidente da Universidade do Missouri renunciou, após uma série de protestos ligados a lentidão da instituição com casos de racismo no Campus. Esse texto não é sobre este evento, mas um que se seguiu a renúncia de Wolfe. Um com implicações graves quanto a noção de liberdade de imprensa.

Acampados no Quadrângulo do Campus, os estudantes ligados ao movimento #ConcernedStudent1950 (assim nomeado a partir do ano em que os primeiros alunos negros entraram na instituição) declararam o local “um espaço seguro sem mídia”. O que se seguiria era uma demonstração de autoritarismo.

Pouco após a renúncia de Wolfe, membros do protesto cercaram o Quadrângulo aos gritos de “hey hey, ho ho, Reporters have to go”. No Twitter, a conta do movimento destratava a imprensa alegando que “essa história não é sobre você”, e não é: mas ela deve ser coberta. E ao final do dia, o movimento começava outra batalha, contra o jornalismo e o corpo estudantil do curso de jornalismo da Mizzou.


Tim Tai, um veterano de jornalismo a serviço da ESPN.com tentou cobrir as celebrações da renúncia in loco, antes de ser assediado e intimidado por manifestantes alegando que ele “não tem o direito de tirar fotos”. Rejeitando a narrativa do movimento e informando dos seus direitos constitucionais, Tai foi então intimidado por uma administradora da universidade, ligada às fraternidades e sororidades na Mizzou, que alegou que Tai estava “violando os direitos civis dos manifestantes”. A adminstradora, posteriormente identificada como Janna Bazzler, se recusou a se identificar para o estudante, alegando que “seu nome era 1950”.
O confronto foi gravado por outro aluno da instituição, o veterano de história e fotógrafo do jornal da Universidade, o The Maneater, Mark Schierbecker. Schierbecker foi também alvo da ira dos manifestantes, sendo ameaçado pela professora de estudos culturais e mass media Melissa Click - que ante a recusa de Schierbecker em se retirar do espaço público, pediu a ajuda de “músculo” para forçar o repórter a sair. O reitor da escola de jornalismo da universidade de Missouri, Davius Kurpius, condenou a professora e retirou seu título de cortesia dentro da instituição. Kurpius foi só um dos muitos professores de jornalismo nos EUA a condenar Click abertamente.


"Sem mídia - Espaço Seguro":
Descaso com a liberdade de imprensa em
um espaço público.
A justificativa oficial do movimento para esse comportamento era “evitar narrativas desonestas”. Como pretendiam fazer isso é desconhecido. O que se sabe é que, após dois incidentes de agressão verbal e ameaças contra jornalistas do campus, o protesto conseguiu cobertura da imprensa - uma cobertura nada positiva, e que ressalta o comportamento autoritário e censurador adotado por dois adultos envolvidos no incidente.

Tai e Schierbecker fizeram o seu trabalho de forma admirável. O comportamento adotado pelos dois funcionários da instituição não difere em nada de outras tentativas de intimidar jornalistas por parte de políticos (como a expulsão de um jornalista da Univision pelo pré candidato republicano Donald Trump em uma coletiva), empresários e autoridades. E só difere das tentativas de censura de governo ditatoriais pela falta (até o momento) de violência física.

A resposta do movimento e das duas funcionárias - Click e Bazzler - à repercussão foi igualmente negativa.  Enquanto o 1950 tratou de alegar que não impede o trabalho de imprensa contanto que feito por eles mesmos em vídeos postados pelos manifestantes, acesso de profissionais continua barrado a força, as duas duas funcionárias trataram de apagar seus perfis online e recusar respostas e pedidos de entrevistas. O Sistema Grego, das Sororidades e Fraternidades, por sua vez, declarou seu apoio a Bazzler, que considerou ter sido “mal compreendida”.

É compreensível que haja uma falta de confiança na mídia por parte de um movimento ligado a minorias - por sinal, completamente justificado. No entanto, isso não é nem motivo e nem justificativa para expulsar repórteres de um espaço público, alegar que a ela não tem o “direito” de cobrir o ato porque “ a história não é sobre ela” (um argumento que essencialmente anula todo o trabalho da imprensa - afinal, jornalismo não é sobre jornalistas, ou ao menos não deve ser), ou “chamar o músculo” quando esta se recusa a sair. 


A atitude do movimento 1950 gera um precedente perigoso quanto a liberdade de imprensa: a noção de que movimentos sociais tem o direito de expulsar e ameaçar jornalistas no seu meio “por não se sentirem confortáveis”. Isso já tem sido visto em alguns protestos e manifestações aqui no Brasil: em junho de 2013, Caco Barcellos foi expulso aos berros de uma mobilização contra aumentos da tarifa de ônibus em São Paulo. Em novembro passado, um profissional do CQC foi agredido e expulso em uma manifestação contra o governo de Dilma Roussef. Este ano, o Movimento Brasil Livre (MBL) ameaçou e hostilizou jornalistas em uma manifestação no dia 15 de março. Já em novembro, manifestantes pró-Bolsonaro  agrediram verbalmente a equipe do Diário de Pernambuco no Aeroporto de Guararapés, pedindo o retorno da censura.

Independente de qual seu posicionamento político, não é aceitável o uso de “músculo” e intimidação para impedir o trabalho jornalístico, especialmente dentro de espaços públicos. A alegação de que o grupo “se apoderou” ou “tornou aquele um espaço seguro” é irrelevante. A liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia e é absurdo que movimentos que se dizem democráticos - em ambos os lados da política - se vejam no direito de impedir o trabalho da mesma. Isto é uma atitude típica de ditadores, visando que apenas o seu lado seja ouvido, sem contraponto e sem questionamento.


*o caso recebe uma dose extra de ironia quando dois dias antes de seu acesso de autoritarismo, Melissa Click havia convidado a imprensa a vir cobrir o protesto.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Xenofobia, ignorância e as raízes do ódio.

Protesto do grupo xenófobo PEGIDA em fevereiro:
um dentre muitos.
Uma onda de violência tem causado preocupação na Alemanha. Cercado pelo discurso xenofóbico crescente, o país tem visto uma onda de ódio “sem precedentes desde o fim do nazismo” que ameaça a imagem de tolerância que o país lutou para formar, segundo o Der Spiegel. Exemplificando a questão, os ataques contra imigrantes e centros de refugiados triplicaram entre 2014 e 2015 - até outubro, foram 493 ataques - e a gravidade dos atentados aumentou igualmente: onde antes jogavam-se pedras, agora jogam-se molotovs. As velhas pichações deram lugar a manifestações neonazistas e agressões. É fácil imaginar que esses eventos sejam apenas ação de "vândalos" e "bandidos", e que não haja nenhum problema maior a ser resolvido, apenas "criminalidade" sem direção. Mas em dois terços dos ataques na Alemanha, os envolvidos não tinham passagens pela polícia. Algo está levando "cidadãos comuns" a abraçarem a violência como solução para seus medos - e as consequências dessa reação já são bem conhecidas. Os alvos podem mudar, mas o ódio em si? Ele é sempre igual.


Mas o problema não se restringe a Alemanha. O ódio à imigrantes - particularmente os refugiados do Oriente Médio - é um problema global. Nos EUA, no Reino Unido e na França já há discurso partidário pedindo a expulsão dos “terroristas em potencial”. No restante da União Européia, casos de violência contra refugiados são comuns. Ainda no Reino Unido, o próprio caráter dos refugiados como refugiados é questionado por grupos como Britain First e o partido UKIP, com insinuações de que seria uma “Infiltração do estado Islâmico”. Nos EUA, acumulam-se casos de agressão em um país que se vê tomado por protestos armados ao redor de mesquitas. O argumento de todos os casos é de que os muçulmanos são “intrinsicamente violentos”, e portanto temos que usar de mais violência.


Por trás da violência, estão dois discursos repetidos ao longo da história. Um é o discurso xenofóbico, com alegações de que “eles” (os imigrantes) estão aqui para “roubar nossos empregos” e “parasitar o estado”, que são “violentos” e “criminosos”, trazendo miséria e doença para “nossa grande nação”. É um discurso que tem mais influência entre aqueles que se consideram "deixados de lado" em decorrência da vinda de imigrantes: comunidades mais pobres, historicamente negligenciadas, desempregados e os outrora privilegiados. Não sem motivos, o ódio na Alemanha é mais intenso no leste - que deu uma forte guinada para a extrema direita após a queda do muro, quando os sentimentos de abandono e negligência da comunidade nos dois regimes viraram combustível para neonazistas e similares. É um discurso causado por um medo basal de que a nação idealizada deixe de ser como é no seu imaginário, e que outras identidades - estrangeiras e alienígenas ao seu convívio - tomem seu lugar. Como nota Bertrand Russell, “Medo coletivo estimula o instinto de manada, e tende a produzir ferocidade contra aqueles que não são parte da manada”. É exemplificado nos “argumentos” do pré candidato Republicano Donald Trump para se opor a migração oriunda do México: “Eles estão nos enviando estupradores e traficantes, não pessoas boas”.

Tema recorrente: o Islã como bloco monolítico,
medieval e violento. Neste caso, como
a antítese da civilização.
O outro é o perene favorito de estados autoritários, o do “inimigo”. Atualmente, na forma de memes e talking points islamofóbicos, pautados antes na Al Qaeda, hoje no Estado Islâmico. Embora em o discurso declarado seja contra extremistas, o subtexto acusa implicitamente todos os muçulmanos nas ações destes jihadistas. O “terrorista” e o “muçulmano”, no imaginário popular, são um só; Enquanto a retórica de muitos grupos insinua que todos os muçulmanos são “o inimigo”, vários são explícitos em seu ódio. Essa sombra idealizada do islã foi bem descrita por Chris Allen como sendo “o oposto” e a “sombra” da civilização. Em outras palavras, o Bárbaro e o selvagem. Essa imagem popular é o que faz com que sejam aceitáveis as representações desumanizantes do muçulmano vistas em charges políticas, comparadas pelo sociólogo inglês com as imagens de propaganda nazista contra os judeus.

Com isso, as pessoas que estão fugindo da barbárie do Estado Islâmico e da Guerra Civil Síria são vistos como os responsáveis. Na visão xenofóbica, os refugiados não estão fugindo do conflito: estão trazendo ele consigo, seja por não terem “feito o bastante” para encerra-lo... ou por serem “agentes infiltrados” do terrorismo. A noção de muçulmano=terrorista se fez bem clara quando Ahmed Mohammed, 14 anos, levou um relógio de fabricação própria, para mostrar ao seu professor de engenharia. Ao invés de ser parabenizado, Mohammed foi detido, acusado em rede nacional de “levar uma bomba falsa” e atacado por celebridades “racionalistas” como Richard Dawkins e Bill Maher, que se uniram em discurso a conservadores como Bill O’Reilly e Sarah Palin. Agora, depois de um circo midiatico, ofertas de bolsas e desculpas estatais, Mohammed se mudou para o Qatar.

enquanto isso, também nos EUA, o dono de uma loja de armas se vê no direito de estimular a violência contra muçulmanos.

O escritor americano George Bernard Shaw nos lembra que a tendência a xenofobia é proporcional ao quão “insulares” e ignorantes sobre “o outro” as pessoas são. Como ele nota . “Todas as classes, em proporção a sua falta de viagem e familiaridade com a literatura estrangeira, são belicosas, preconceituosas com estrangeiros, e afetas a luta como um esporte cruel. Em suma, cães em suas noções de política externa”. O temor e a xenofobia se dirigem ao “desconhecido”, o outro, aquele cujo nosso conhecimento não tem bases para filtrar a propaganda e a demonização; daí a eficiência hoje em pintar 1,8 bilhões de pessoas como terroristas e simpatizantes do terrorismo, assim como milhares de imigrantes japoneses foram pintados como “traidores em potencial” durante a Segunda Guerra Mundial.


As raízes da xenofobia estão em algo que é disseminado por todos os níveis da esfera pública: os clichês. É fácil manter o discurso de ódio e medo quando o alvo é um construto efêmero e repleto de lugares comuns. Assim como é simples e confortável alegar que aquele cara que você conhece que é muçulmano/haitiano/chinês/judeu é “diferente”, “é um dos bons”, “não é como o resto”. Afinal, se tem uma ideia pronta do “resto”, e enquanto o “resto” for tão deslocado da realidade da pessoa quanto esse clichê... o clichê vence. A mídia tem um papel muito grande na preservação desses clichês, e já passou da hora de exercer um papel em quebrar estes clichês.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Blair, Iraque, e o nascimento do Estado Islâmico




Demorou, mas aconteceu: na semana passada, o ex-Primeiro Ministro britânico Tony Blair reconheceu algo que cientistas políticos diziam há anos. Em entrevista a CNN no último domingo, Blair pediu desculpas pelos erros cometidos na Guerra do Iraque, notando que sem ela o atual problema do Estado Islâmico não existiria.

O político trabalhista Inglês disse não se arrepender de ter removido Saddam Hussein do poder (com razão: o regime de Hussein era um dos mais violentos da região), mas sim dos motivos e resultados da guerra. Baseada em inteligência errônea, a Guerra do Iraque se estendeu por quase nove anos e deixou entre 100 mil e 600 mil mortos. Foi o palco de inovações na arte da guerra e no controle de informações, e no uso de “combatentes aliados”.

Porém, a questão central não é se erraram ou acertaram na invasão, e sim o custo desta para o futuro. Sem um projeto para o futuro do país, as forças da coalizão entraram no Iraque com a ilusão de que derrubado o tirano, a democracia reinaria. No entanto, a realidade foi muito diferente do planejado: com a queda de Saddam,o caos se apoderou do País. E em sequência, o radicalismo ganhou força, dando força a células regionais da Al Qaeda.


Desse caos e do vácuo de poder, as milícias treinadas contra o ditador do partido Baath, os comandantes do antigo regime e “senhores da guerra” regionais se engalfinharam pelo controle. Essa massa de serpentes foi chocada pela mobilização resultante da “Primavera Árabe”. Desses combatentes, deslocados para a Síria visando a queda de Bassar Al Assad, surgiu algo novo, coalescido sob o discurso messiânico de Abu Bakr Al Baghdadi: o Estado Islâmico.

É incontestável que Saddam precisava ser derrubado, e que o Iraque se beneficiou da sua queda. No entanto, os resultados da Guerra do Iraque, reconhecidos por Tony Blair, demonstram a importância de um projeto para o pós guerra, como forma de evitar uma infestação de déspotas e tiranetes.

Agora, dois anos adentro da crise com o Estado Islâmico, a Rússia se envolve diretamente no conflito com o mesmo ímpeto que as forças aliadas fizeram contra Saddam em 2003. Ao mesmo tempo, temerosos de repetir o desastre que foi a intervenção na Líbia, as potências ocidentais armam milicias para combater os extremistas. Termos os mesmos erros outra vez?

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Hímen e a hipocrisia masculina

Sim, essa mentalidade voltou. 
Precisamos falar sobre hipocrisia. Em particular, sobre hipocrisia masculina. De uns dias para cá, grupos de “ativistas dos direitos do homem” retomaram um dos padrões mais machistas para “avaliar o valor de uma mulher”: se ela é virgem ou não. A alegação é de que isso valoriza “a pureza”, mas que pureza é esta?

Não é cobrada dos rapazes esta mesma pureza, muito do contrário: dos garotos é esperado que tenham o máximo possível de “experiência” sexual no mínimo possível de tempo. É um completo paradoxo: os rapazes tem que ser “experientes” e “pegadores”, mas as garotas inocentes, puras e intocadas. E aquelas que satisfazem a vontade desses rapazes? “vagabundas”, “vadias” e outros termos piores.

O culto à virgindade exposto em um texto medievalesco do Diário de Santa Maria, que trata a “donzela virgem” como mercadoria a ser devolvida “se o lacre estiver violado” é um reflexo do machismo que tantos insistem não existir. É uma forma de controlar o corpo e a vida de mulheres e atrelar o seu valor a um ato apenas. Ou a uma membrana de tecido (que os mesmos que a supervalorizam não entendem como funciona).

Eis uma verdade sobre o Hímen: ele não deveria romper, e em grande parte dos casos, ele não rompe. A tradição tola de “averiguar a virgindade” pelo sangramento na primeira vez nada mais é do que um mecanismo de controle e uma desculpa para não respeitar os limites da mulher. Afinal, se “a primeira vez sangra e dói” de qualquer jeito, não há porque se preocupar em fazer com que não seja sofrida.



A parabola machista.
Um velho meme serve de exemplo perfeito desse double standard hipócrita. A imagem (ao lado) compara o homem com uma chave, e a mulher com uma fechadura, insinuando que o homem “pegador” tem mais valor por “abrir mais portas”, enquanto a mulher “oferecida” é inútil pois “abre com qualquer chave”. Mas pessoas não são chaves e trancas, e seu valor não se dá por sua sexualidade.

Não vou me atrever a dizer sobre como as mulheres devem agir quanto a sua sexualidade, salvo dizer que, se o cara te valoriza só por sua “pureza”, ele é um idiota. Mas quanto aos homens, tenho muito a dizer. E pouco de bom.

Criamos padrões impossíveis de serem alcançados, e um senso de “eu mereço isso” que beira o infantil. Não são poucos que desejam uma mulher que seja “uma santa na rua e uma atriz pornô na cama” (e ignoram que a maneira que sexo é retratado em pornografia não condiz com a realidade). Seja o que for o resultado das investidas (indesejadas, muitas vezes), a parte errada nos olhos de muitos rapazes e homens “maduros” é a mulher. Ela aceitou? É uma vadia. Disse não? Frígida. Roupa curta? piriguete. Recatada? “Deve ser uma louca na cama”, é uma fingida. Foi abusada? “Tava pedindo”.

Friendzone: a terra dos "caras legais" que chamam as "amigas"
de vadias quando elas querem ser só amigas. 
Isso quando não se perpetua o mito ridículo da “Friendzone” (o qual admito, já propaguei, já fui um desses idiotas). A ideia absurda de que amizade é uma punição, e de que falsas gentilezas (sim, falsas: se você só é gentil com alguém porque quer entrar nas calças dela, não é gentileza, desculpe me informar) deva ser retribuída em favores sexuais. Se a única coisa para qual você dá valor em uma relação é a possibilidade de “levar ela pra cama”, sinto muito, mas isso não é amizade. E você é um canalha por fingir que valoriza a amizade.

Por tempo demais mulheres tem sido avaliadas por nós homens com base apenas em seu valor sexual e uma noção hipócrita de pureza que as vê como uma conquista (Sim, conquista: a ideia de “moça pura” ´vem da noção de “eu conquistei ela antes de todos”). Isso afeta todas as esferas da sociedade, e o eterno moinho de rumores tranquilamente associa o sucesso de uma mulher a “favores sexuais” ou a sua aparência. O mito da friendzone, tão disseminado entre os millenials demonstra isso ainda mais: a amizade com uma mulher não tem valor sem sexo, e isso é grotescamente errado.

Eis o que tenho a disser para vocês: parem de pensar em mulheres como genitais para serem conquistados. E parem de pensar que elas não tem valor se “já foram tomadas”. A coisa é simples: mulheres são pessoas, deveria ser óbvio. Mas tem gente que tem dificuldade em entender isso. E depois reclamam das “feminazis” (uma comparação que por si só já é um absurdo). É bem simples: deixem de ser idiotas. E ouçam o que as mulheres tem a dizer sobre o seu comportamento.

E uma recomendação de leitura, que demonstra o quão grave é o impacto dessa (e de outras) forma de slut-shaming: I Am not a Slut: Slut-shaming in the Age of the Internet

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Até que ponto vai o ódio?

Em fevereiro, Revoltados ON Line postou calúnias contra
o imigrante haitiano Auguste Lubain, e insinuou que os caribenhos
estivessem no país para "impor a ditadura". 
A onda de ódio contra Haitianos cruzou a linha que eu temia: neste sábado, movido pelo discurso xenófobo que se tornou vigente, um homem abriu fogo contra um grupo de Haitianos na capital paulista. O atentado deixou quatro feridos e um morto. Este é o segundo incidente de violência armada contra imigrantes haitianos desde o início do ano. Em junho, um haitiano foi baleado no estômago por dois homens em uma moto na cidade de Rio Grande, RS. 

Enquanto isso, o discurso contra os imigrantes se torna cada vez mais comum: uma semana antes do ataque ao haitiano em Rio Grande, um membro do grupo "Revoltados ON Line" gravou um vídeo ameaçando e assediando um frentista haitiano. Antes disso, o mesmo grupo havia incentivado a agressão aos nativos do país caribenho com alegações de que estes seriam "criminosos" e que seriam parte de uma "conspiração comunista". 

Ontem, na câmara dos vereadores de Joinville, foi realizada uma audiência pública para tratar da questão migrante na cidade. Em um pequeno, mas extremamente importante passo, foi tomada a decisão de criar uma comissão permanente de apoio ao Imigrante. No entanto, enquanto a cidade avança nesse aspecto, reações negativas não são raras. Na página que convocava para a audiência, um pequeno grupo se dedicou ao discurso de ódio contra negros - sejam haitianos ou não. 

Discurso postado em página de evento sobre a imigração
haitiana em Joinville.
Em redes sociais, os discursos contra os imigrantes vão desde o compreensível mas errôneo "acho que deveriam cuidar dos nossos antes de trazer imigrantes" até alegações de que "haitianos são estupradores" e "porque trazer esses 'parasitas' para o Brasil". Outro discurso comum é que os imigrantes vieram ao país para "roubar as eleições" - tese reproduzida por vários "formadores de opinião". O mesmo vitriol contra a imigração de países caribenhos só é vista com imigrantes africanos - quanto aos imigrantes europeus, não há um pio. 

Em casos mais preocupantes, que demonstravam o grau de ignorância dos xenófobos nacionais, houve o pânico a respeito de imigrantes haitianos trazerem Ebola ao país (a doença havia ressurgido na África Subsaariana); que houvessem membros do Boko Haram (um grupo extremista Somali) entre os migrantes do país caribenho; e mais recente, que o Estado Islâmico viesse ao Brasil via Haiti - um país de população 98% católica, e longe do território do EI, entre a Síria e o Iraque. 

O discurso contra imigrantes é extremamente atraente para "atiçar os ânimos" da população. Ele oferece uma explicação simples e primária para todos os males da nação, de desemprego a criminalidade, sem se preocupar com análise aprofundada ou evidências. Apesar do progresso que foi feito no tratamento de minorias, migrantes de países pobres ainda são "alvos válidos" para o preconceito. Foi esse discurso que catapultou o magnata americano Donald Trump nas pesquisas de intenção de voto, ao afirmar sem pudor que os imigrantes mexicanos eram "traficantes e estupradores". 

Curiosamente, os imigrantes em outros países são usados como justificativa para a xenofobia. Nos EUA e no Brasil, o discurso xenófobo contra imigrantes de países Árabes é pautado na tese (sem fundamento) de que "múltiplas cidades europeias" foram tomadas pelo Islã. A rede de notícias americana Fox News se tornou alvo de piadas depois de afirmar que a cidade britânica de Birmingham era "100% islâmica" e se tornara uma "zona de acesso proibido" para infiéis. No Reino Unido, grupos como Britain First e Ukip, por sua vez, usam a França como argumento. Em Paris, o argumento é Berlim. E assim vai. 

E no meio desse mar de insanidade, a voz da razão vem de uma jornalista alemã, Anja Rechske, que causou polêmica esta semana após clamar por um "levante das pessoas decentes". Embora esse tipo de frase seja comum por parte dos xenófobos, que se definem como "pessoas de bem", o que Anja pediu foi o contrário: um levante de quem não tolera esse discurso racista e intolerante, para que exponham e condenem seus autores. Que o discurso de ódio não seja mais tolerado. Que os escribas do ódio entendam que a sociedade não mais aceitaria isso. 


Segundo a jornalista da ARD, até alguns anos atrás as pessoas que mantinham esse pensamento pequeno tinham vergonha, e se escondiam por trás de pseudônimos. Mas agora, tem não apenas mostrado a cara, sem medo de parecerem racistas, como também tem ganhado "likes" e respeito por seu discurso de ódio. Rechske conta com grande apoio da população alemã - mas enfrenta ataques de quem vê seu pedido por ação contra o racismo como uma afronta a liberdade de expressão. Ironicamente, querem que ela seja demitida pro emitir sua opinião.

Qual linha terá que ser cruzada antes que se tomem medidas sérias contra esse tipo de ódio, eu me pergunto? Mesquitas foram incendiadas em nome da ideia de que todo muçulmano é terrorista; Sinagogas foram incendiadas como resultado de discursos neonazistas. Em nome da xenofobia, imigrantes são agredidos, espancados e mortos. Até quando?

sexta-feira, 1 de maio de 2015

As muitas mortes de Al Baghdadi.

Al Baghdadi foi dado como criticamente ferido pela terceira
vez. A pergunta é: Importa? Foto de divulgação.

A campanha contra os extremistas do Estado Islâmico parece ter tido um sucesso: segundo o The Guardian, o líder e auto-proclamado Califa do grupo terrorista, Abu Bakr al-Baghdadi, foi gravemente ferido em um ataque aéreo no final de março. Seriam ótimas notícias para a campanha contra o EI... não fosse pelo fato da notícia levantar dúvidas: em novembro passado, al-Baghdadi também havia “sido ferido gravemente em um ataque aéreo”, notícia que se revelou falsa. E o mesmo ocorrera em julho do ano passado.

A incerteza dessas informações é sinal da precariedade tanto da inteligência aliada na região, quanto da cobertura jornalística. O estado de caos na Síria e no Iraque é tamanho que coletar informações confiáveis se torna cada vez mais difícil, dependendo de fontes anônimas e “citizen journalists” que nem sempre tem compromisso com a verdade. E nesse caos, informações se perdem, se inventam e o que é noticiado nem sempre condiz com a realidade.

Há um perigo muito grande em se contar com a vitória nesse momento. Se o estado de al-Baghdadi for uma mentira isso é mais munição para os extremistas, que poderão novamente dizer que “o ocidente” mente para os árabes. E se for verdade? A morte de al-Baghdadi pode não ser uma vitória: vivo, o auto-proclamado califa é um líder. Morto, é um mártir com uma influência ainda maior e um vácuo de poder a ser preenchido.

Sim, a possível morte de al-Baghdadi pode esfacelar o Isis, caso seus asseclas virem uns contra os outros buscando tomar o poder para si. Isso pode ser bom para o ocidente (afinal, a ameaça do EI se fragmenta), mas não é nada bom para o Oriente Médio. Uma disputa pelo poder nesse momento significaria uma guerra civil ainda mais violenta no Iraque e na Síria, que já sofrem com o caos generalizado.

Ao mesmo tempo, a morte de al-Baghdadi pode aumentar a sua influência a níveis sem precedentes. Como muitos movimentos extremistas de fundação abraâmica, o EI tem uma obsessão com o conceito de martírio, e não poderia haver mártir melhor que um “homem santo assassinado covardemente pelos infiéis, que visavam silenciar sua palavra”.

A situação do Estado Islâmico é um legítimo Ardil 22, como no clássico romance de Joseph Heller: a permanência de al-Baghdadi no poder é uma ameaça, pois é aquilo que sustenta o EI; a solução para esse problema seria retirá-lo do poder. No entanto, matar ou fazer uma “rendição extraordinária” faria dele um mártir, o que aumentaria o poder e a influência do EI. Resolver a situação de forma pacífica é inviável enquanto o grupo mantiver controle militar da região, e dialogar com a população é impossível sem retirá-los de lá. Bombardeá-los até a submissão é impossível, dado que seus mortos se tornam motivação para novos militantes e as tentativas de fulminá-los causam mais baixas civis do que de extremistas. As condições do dilema tornam qualquer solução inviável.

E ao contrário do cenário proposto pelo filme “Jogos de Guerra”, de 1983, este é um jogo em que não existe a opção de não jogar. É fácil pensar em um conflito armado como uma partida de Xadrez: elimina-se o rei, e o jogo está ganho. Bem, este rei foi aparentemente eliminado três vezes. E o jogo continua. Al-Baghdadi, o homem, não é importante, como notou o professor de história da California State University, Ibrahim Al-Marashi. Seu carisma formou o ISIS, e o impeliu a se tornar o Estado Islâmico.

Quando a atual “guerra ao terror” se iniciou, o grande inimigo era a Al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden. No fracasso da Al Qaeda, o EI cumpriu aquilo que Osama prometera: um califado islâmico no século XXI. Seus seguidores não se sustentam mais na nostalgia do califado Abássida, uma memória idealizada de sete séculos atrás, mas em preservar o seu califado. O seu “estado ideal”. E isso é muito mais difícil de sufocar do que as palavras de um homem só. Se al-Baghdadid morrer, vira mártir e herói. Se viver, continua como líder. De qualquer maneira, todos perdem, menos os extremistas.

Há de haver uma solução. Esperemos que a comunidade internacional saiba como encontrá-la. Ao final da segunda guerra mundial, a solução para evitar a retomada do Nazismo e do Imperialismo Japonês foi a reconstrução dos dois países, com fortes políticas para combater o extremismo. Mas antes que essas medidas fossem implementadas, foi necessária uma grande perda de vidas para derrotar às maquinas de guerra da Alemanha e do Japão.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

O massacre da educação


Fonte: APP-Sindicato dos Trabalhadores em
Educação Publica do Paraná
Balas de borracha. Gás lacrimogênio. Sprays de pimenta. Blindados. Cães treinados. Atiradores de elite e sangue derramado. Os alvos desses instrumentos de repressão? Os professores do Estado do Paraná. Enquanto estes lutavam para preservar seus direitos previdênciários, o governador Beto Richa (PSDB) os tratou da mesma maneira que ditadores do oriente médio: na base de tiro, porrada e bomba.

A grande mídia chamou o absurdo de “confronto”. Tal denominação se aplicaria se houvessem algum princípio de igualdade de forças em jogo. No entanto, o que se viu foi uma disparidade sem igual: de um lado, policiais equipados com todo o aparato de repressão que o estado pode custear. Do outro, professores que, se tanto, tinham paus e pedras. É o equivalente a dizer que Tian An Mén*, Ferguson* ou Kobane* foram “confrontos”. O grau de violência pode não ser o mesmo, mas a disparidade de forças é igualmente evidente. Chamemos como é: um massacre.

Se há algo de “notável” na truculência de Beto Richa é quanto da máquina estatal foi movida para isso. Veículos do BPFron (Batalhão de Fronteiras) da Polícia Militar do Paraná foram convocados para auxiliar na repressão aos manifestantes, enquanto a Assembléia Legislativa votava a manobra fiscal que alterava a forma de pagamento das aposentadorias. O batalhão normalmente opera à cerca de 600 km da capital, na triplíce fronteira.

Segundo Luís Domingos Costa, professor de Ciências Políticas da Uninter, entrevistado pela Gazeta do Povo, este foi o pior episódio de repressão já vivido no estado do Paraná. O único episódio comparável ocorreu em 1988, sob o governo do hoje senador Alvaro Dias (PSDB), quando uma greve de professores foi recebida com a cavalaria da polícia militar e bombas de efeito moral. No entanto, enquanto o episódio desta semana deixou mais de 200 feridos e dez presos, em 88 foram “apenas” dez feridos e cinco presos.

De imediato, Richa defletiu sua responsabilidade: a culpa, diz o governador, é do PT, do PSTU, do PSOL, da CUT... em outras palavras, “é a ameaça vermelha”. São os movimentos trabalhistas e a esquerda “implantando o caos no país”. Chegaria a ser ridículo, não houvessem tantos dispostos a apoiar esse discurso saído diretamente dos anos 50.

Não há muito que possa ser dito em defesa de um governo que se julga correto em agredir professores. A posição do governo do Estado do Paraná é clara: “abaixem suas cabeças”. O mesmo ironicamente se aplica aqueles que serviram como cães de guarda do governador nessa tragédia anunciada. Em 2012, o tucano declarou que era “bom” que os PMs do estado não precisassem de diploma, pois “pessoas com formação superior são insubordinadas”. Richa não se interessa por autonomia. Ele quer peões dispostos a fazer o seu trabalho sujo, coisa que se vê claramente na prisão de 17 policiais e a sua possível exoneração por se negarem a reprimir os protestos de professores.

 

*O massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, quando o Exército de Libertação Popular da China reprimiu com toda a força militar do partido o protesto de estudantes e intelectuais pedindo por abertura política. A repressão deixou centenas de mortos e entre sete e dez mil feridos.

*Ferguson, Missouri: os protestos em resposta  a morte de Michael Brown, baleado seis vezes por um policial, resultaram em equipamento militar sendo usado para reprimir protestos, deixando 200 presos e 11 feridos. Para defender a operação, a policia local alegou que os manifestantes queriam “policiais mortos”.

*Kobane: Protestos pela independência kurda após o fim do cerco a cidade de Kobane no norte da Siria foram repreendidos com violência pelas forças de ocupação turcas, em 2014. Ao fim dos protestos, a polícia e o exército turco deixaram 12 mortos. Protestos subsequentes pela Turquia resultaram em mais 31 mortes.